terça-feira, agosto 04, 2009

A história de Karima, a planta carnívora [+8 anos]




O João da Vírgula é um importante biólogo.

Estuda todas as plantas exóticas que lhe caem nas mãos.

É a pessoa que mais entende de plantas de todo o país, por isso faz importantes estudos sobre a flora.

Quase todos os dias recebe pacotes com plantas. São plantas que vêm de todas as partes do mundo.

Vêm em pacotes muito grandes, porque as plantas têm que vir à vontade, com o seu vaso embaixo, a sua terra, e se calhar um saquinho de água.

Aliás devem vir embrulhadas em plástico transparente com buracos para poderem respirar e que lhes entre o sol.

Na realidade, o João da Vírgula tem um jardim botánico em casa, uma espécie de floresta toda cheia de plantas de toda classe.

Tem-nas grandes, pequenas, de folhas enormes, de folhas de agulha, plantas de climas secos, de climas húmidos…

O João da Vírgula adora todas as suas plantas. Trata-as como se fossem as suas filhas.

Tanto é assim que a cada uma delas tem-lhe dado um nome.

Por exemplo, um fícus argentino chama-se Manuela do Tango, um cacto namíbio chama-se Andrea do Kalahari, ou uma mandarina anana de Noruega chama-se Karlota Orangenssom, porque o João, além de nome, põe-lhes apelidos que façam referencia ao seu local de procedência, para elas se sentirem bem.

Mas nem sempre as coisas foram assim.

Não há muito tempo, os outros colegas dele não o tomavam muito a sério.

Afirmavam que era mais bem uma nurse de plantas do que um científico.

Mas ele não se importava, adorava as suas plantas.

E todo ia muito bem até aquele dia.

Si, justo naquele dia de janeiro, quando a neve cobria toda a cidade e os termómetros já não podiam baixar mais, chegou-lhe aquela planta.

Se calhar, deveria ter chegado com um cachecol, mas as plantas, infelizmente para elas, não têm pescoço a que dar um nó num cachecol.

A planta vinha de Egito.

O João da Vírgula ficou surpreendido quando viu aquela planta. A nota que a acompanhava dizia:

«Acho –dizia um seu colega– que se trata duma planta carnívora, mas ignoro de que se alimenta. É um exemplar único que encontrei na choça de um pegureiro, morta de nojo, a esmorecer…»

Coitada planta carnívora – se é que o era verdadeiramente.

O João da Vírgula ficou um bocadinho a pensar no nome que lhe poria, porque isso era o primeiro que ele fazia com as plantas. Aos poucos decidiu que a chamaria Karima de Alexandria O João Vírgula dedicou-lhe toda a sua atenção á coitada da Karima.

Era verdade que tinha um aspeto desastroso, com as folhas para cair, como se estivesse muito triste.

De fato dava mágoa vê-la.

O biólogo provou tudo.

Deu-lhe toda classe de vitaminas, ofereceu-lhe insetos de todo tipo, bem nutritivos, deitou-lhe mesmo colónia com cheiros muito agradáveis para lhe elevar a moral…

Até verteu um elixir que preparara a sua sogra, que todos diziam que era uma bruxa, ideal para animar as pessoas.

Mas nem assim.

A planta carnívora seguia toda murcha.

O João da Vírgula escreveu para o seu colega que lhe tinha enviado a planta de Egito.

Pediu-lhe mais informação sobre ela, porque ele não tinha encontrado nada, nem na net.

O colega respondeu logo dizendo:

«Fiz todas as pesquisas possíveis sobre a planta, colega da Vírgula. Não é muita a informação que lhe posso fornecer. Conforme os nativos da região, é uma planta que se alimenta dumas lombrigas brancas que se criam só nesta região e que eles usam para pescar».

Não, não era muita aquela informação.

No entanto, a coitada da Karima de Alexandria estava cada dia mais murcha e com pior aspeto.

Ia durar muito pouco se continuava assim.

O João estava verdadeiramente preocupado. Não fazia mais do que provar coisas com ela sem resultado nenhum.

Tanto era assim que até esqueceu comer durante três dias.

Finalmente veio a sua mulher resgatá-lo.

Ela sabia como o seu home era um desastre. Por isso tinha-lhe preparado o seu prato favorito: esparguetes à carbonara, um prato enorme cujo recendo inundava todo o quarto.

Quando o João começou a cheirar aquele prato, fechou os olhos e foi trás do cheiro dos esparguetes.

Ia hipnotizado. A sua mulher arrumou um pouco a sua mesa de trabalho e pousou o prato acima da mesa, junto com um garfo e um colher para o home comer.

E comeu, certo que comeu.

Devorou o prato… bom, todo não, quase tudo, porque aquela quantidade de massa não devorava ninguém.

Deixou um pouquinho de massa no prato, que ainda largava aquele recendo maravilhoso.

O João Vírgula foi à casa do banho para lavar os dentes.

E quando volveu… que surpresa!!

Quando volveu encontrou uma das folhas da Karima de Alexandria inclinada nos restos do prato de esparguetes.

Estava a sorver um esparguete. Até fazia ruidinhos como fazemos os humanos ao engolirmos os esparguetes.

Mas não acabava aí a coisa.

Depois de dar comido o primeiro esparguete, ainda comeu outro e outro e outro…

Cabo duns minutos, a planta mudou de todo.

Adquiriu uma preciosa cor verde intensa, as suas folhas alçaram-se e o seu talo endereçou.

O João não o acreditava, mas era evidente que a sua planta carnívora tomara os esparguetes por aquelas lombrigas brancas da sua terra de origem.

Provavelmente gostava mais dos esparguetes do que das lombrigas, porque todos os dias a planta comia um bom prato de esparguetes à carbonara.

E é assim como o João Vírgula fixo o sua mais surpreendente descoberta.

Acudiu a um congresso para falar disso, mas os outros biólogos riam às gargalhadas, porque pensavam que o João andava maluco.

Até que lhes pôs a Karima de Alexandria diante e todos puderam observar como devorava os esparguetes.

– E sem necessidade de pano para limpar os focinhos… – observou um velho científico que era outro entusiasta da pasta.

E desde então, o João Vírgula é um científico respeitado, que se ocupa das suas plantas mais do que ninguém.

Só lhe queda provar se a sua cara Karima de Alexandria quererá também provar os esparguetes à bolonhesa.

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