sábado, julho 18, 2015

ARIADNA, A DRAGOA COQUETA [+8 anos]

   Sempre, em todas as estórias que tratam de dragões, estes animais som descritos como feras sanguinárias que cospem lume e assam os cavaleiros que os atacam como se fossem polos à grelha. Tampouco é que os cavaleiros ficassem em bom lugar, pois costumavam atacar os dragões com a mesma fereza, providos dumha lança e um escudo, sem lhes importar muito a sorte que corria o cavalo que cavalgavam, porque nom atacavam a pé. Quando um cavaleiro conseguia evitar as laparadas do dragom e espetava a lança no peito da besta, esta podia cair morta, mas mesmo assim existia o risco de o cavaleiro morrer na mesma se nom conseguia afastar-se rapidamente do corpo do dragom a cair, em cujo caso morriam os dous e ninguém contava a façanha, nem o dragom aos seus netos nem o cavaleiro aos seus.
   Em definitiva, tratava-se de mortes estúpidas, mas houvo umha época antigamente em que gostavam destas cousas. Nom sei se o facto de nom se verem mais dragões responde a que acabárom com todos eles, ou se, por acaso, fartárom de ser perseguidos e dalgumha maneira conseguírom passar desapercebidos para os humanos. Há quem acredita muito nessa segunda hipótese, porque desaparecêrom dum dia para o seguinte sem deixarem pegada, mas essa é outra estória de que nom imos tratar aqui.
   Há muitas lendas que falam das relações entre humanos e dragões, mas existe umha pouco conhecida que é a que che vou contar aqui. Aconteceu nalgum lugar da antiga Inglaterra, nalgum dos seus bosques...

   É que a Inglaterra é tão antiga que nem cinco gerações de tartarugas dessas que alcançam os trezentos anos som mais velhas que ela?

   A Inglaterra é ainda mais antiga que todo isso e esta estória aconteceu há muito mais tempo desse que dis de cinco gerações de tartarugas... Pensa que há polo menos mil anos que nom se vê um dragom na face da terra, portanto, isto aconteceu muito antes.
  Todo começou numha família de dragões normais. O pai e a mãe –nisso nom havia distinções– passavam o seu tempo entre procurarem comida e defenderem-se dos cavaleiros que, de vez em quando, apareciam pola calvela do bosque onde viviam para lhes inserir umha lança. Na família, a Ariadna era filha única e medrou num contorno de tensom, pois sempre um membro da família tinha que velar enquanto o resto dormia, para evitarem ataques noturnos dos cavaleiros andantes, ou mais bem cavalgantes.
   Também à jovem Ariadna chegou o tempo de ela vigiar de noite. No início tinha medo, porque nom sabia se seria capaz de lançar lapas contra um cavaleiro que avançasse contra ela ao galope. Por isso, nas primeiras ocasiões, assim que sentia barulho perto dela, lançava laparadas contra o que se movia. Como conseqüência daqueles medos, alguns coelhos e esquios acabárom abrasados.
   Umha em cada três noites, a Ariadna passava-a a noite desperta na procura de qualquer movimento suspeitoso. Pouco a pouco foi-se avezando aos sons da noite, soubo o que era umha coruja, que soava bem distinto dum sapo, ademais de que a primeira voa e o segundo nom. Graças aos novos conhecimentos que ia adquirindo sobre o bosque, foi aos poucos perdendo o medo do que se lhe achegava. Já nom largava laparadas contra cada movimento que se produzia perto dela. 
   Era cada vez mais valente...

   Eu também che sou valente, muito. Nom che tenho medo do que queira que seja que remexe debaixo da minha cama todas as noites.

   Talvez seja umha rata.

   Umha rata? Ai hou, isso sim que me põe medo!

   É brincadeira. Talvez a Ariadna, embora fosse tão valente, tivesse medo das ratas, nom sei.
   Bom, e sendo assim, a Ariadna foi-se afastando cada vez mais da calvela, penetrando no bosque, porque estava curiosa de ver o que havia para além das fronteiras do seu pequeno mundo. Como ademais era umha dragoa miúda, quero dizer, que era umha menina dragoa, nom tevo problemas para se esconder entre os matos.
   Foi assim como descobriu que nom longe de onde moravam corria um regueiro em que o luar se refletia. Ao pé dele, umha mocinha ia todas as noites até a sua beira e sempre fazia o mesmo. Sentava sobre os calcanhares e passava o dedo polas rochas de arredor. Nelas havia umha espécie de tintes naturais com que a rapariga se cobria o rostro e os lábios. Depois contemplava-se nas águas serenas do regueiro e sorria. Encontrava-se lindíssima assim. Depois, limpava a cara e ia embora, cantarejando polo caminho.
   A Ariadna aginha compreendeu que o que fazia a rapariga era algo que lhe fazia sentir-se bem, entendeu que aumentava a sua beleza, portanto decidiu provar ela também. É que nom tinha ela todo o direito a se sentir bonita?
   Foi assim que umha noite, depois de a menina ter ido embora, a Ariadna se achegou também do regato e contemplou o seu rostro na água. Ela nem sabia se era bonita ou nom, porque de facto só tinha visto dous dragões em toda a sua vida: o pai e a mãe, e bom agora ela também refletida no regato. Porém, como era umha dragonzinha curiosa, imitou os movimentos da miúda que descobrira ao pé do regueiro e pôxo-se enfeites polo rostro com aqueles pós que havia nas rochas ajudando-se das suas poutas. Decerto era o mais parecido a se maquilhar. 
  E assim, apareceu umha manhã polo calvela onde moravam os pais. Quando estes a vírom, pensárom que a dragonzinha apanhara umha doença grave, algo talvez contagioso, por isso botárom-na para um recanto, longe deles.
   – Comeche algo em mau estado? –perguntou o pai?
   – Bebeche água com mofo? –perguntou a mãe.
   A Ariadna tevo que lhes explicar aos berros que nom estava doente, que só imitara umha menina humana que se enfeitava na ourela do regueiro e que ela queria ficar bonita como ela.
   – Toleache? –exclamou a mãe–. Nós somos dragões, nom humanos, nom temos que ficar guapos, entendeche? A nossa vida passa entre caçar, dormir e defender-nos dos humanos.
   Aí a Ariadna pensou que já era triste passar toda a vida a fazer só essas três cousas. Decerto que se podiam fazer outras mais. E eles que eram tão grandes nem o podiam imaginar?
   Cada vez que a Ariadna tinha o turno de guarda, acudia ao regueiro, maquilhava-se e depois contemplava o resultado no regueiro se é que havia luar. E foi numha destas quando apareceu por ali a miúda de que apreendera a se maquilhar a dragoa. Chegara mais tarde do habitual.

   E a miúda assustou-se, certo? Pôxo-se a berrar como umha desesperada pedindo socorro e aparecêrom labregos de toda a parte com fouces, gadanhas e até forcas, nom sim?

   Nom, nom che foi assim. A miúda, que se chamava Sabry, gostou de ver a dragoa maquilhada e botou a rir.

   E agora hás-me dizer que a dragoa nom se ofendeu e lhe lançou umhas lapas que deixárom a rapariga assada.

   Nom, nom se ofendeu. Ao contrário, gostou do que via e ambas delas tornárom-se boas amigas. Pensa que nem a menina nem a dragoa entendiam aquela estranha mania das suas respetivas espécies de se perseguirem e se aniquilarem. Elas vírom-se como iguais, como companheiras de jogos.
Assim, a partir daquela noite, cada vez que ambas se encontravam na beira do regato, maquilhavam-se. Tornárom-se boas amigas, tanto assim que primeiro a Sabry maquilhava a Ariadna e depois a Ariadna maquilhava a Sabry. O certo é que se entendiam muito bem e passavam-no à grande juntas. Tiravam-se pola lama da beira e depois banhavam-se no arroio.
   A Ariadna nom queria que seus pais se inteirassem das suas aventuras com a Sabry. Por isso, só se viam cada três dias, que é quando lhe tocava fazer guarda a ela.
   Decorrêrom vários meses assim, em boa companha. A rapariga chegou a apresentar o seu irmão Bob à dragoa:
   – Este é Bob –dixo a Sabry–. Meus pais querem que ele chegue a ser um cavaleiro.
   Mas a cara do Bob nom era precisamente a dum futuro cavaleiro. O de atacar com escudo e lança dragões nom parecia ser, precisamente, umha cousa que lhe fascinasse.
   Ariadna estendeu a sua pouta cheia de pós de maquilhagem e ofereceu ao Bob.
   – Nom, ele é rapaz. Os rapazes nom se maquilham –explicou a Sabry.
   A Ariadna nom deu entendido por que ela sim se podia maquilhar para ficar mais currinha e ele nom, mas eram cousas de humanos e nom ia entrar nisso.
Quanto desfrutárom ambas delas durante várias semanas, também as vezes com o Bob, que resultou ser um excelente construtor de cabanas de madeira; com um machado podia construir quase qualquer cousa. Mas um bom dia, a Sabry e o Bob desaparecêrom, deixárom de acudir à beira do regato. Durante semanas, a Ariadna ficou à sua espera, maquilhando-se soa, mas a rapariga nom apareceu mais nunca. Foi mui triste para a jovem dragoa, porque tinha perdido a única amiga da sua infância.

   E nom conheceu outros dragões com que fazer amizade?

   Conheceu, com o passo do tempo, mas nunca esqueceu aquela sua amiga. Contudo, a Ariadna negou-se a deixar de se maquilhar. Gostava daquilo. Por isso, quando foi encontrando-se com outros dragões, estes riam dela, nom a levavam a sério. Nengum dragom entendia por que a Ariadna queria estar coqueta. Mesmo com o tempo apreendera a se maquilhar muito bem, sabia pôr em destaque as suas pestanas, ou dava um brilho especial aos seus beiços. A ela interessava-lhe mais aquilo do que acabar com os cavaleiros andantes mata-dragões.
   Sua mãe ainda lhe dizia:
   – Essa tua obsessom por te maquilhares em vez de assares cavaleiros cavalgantes vai ser a tua perdiçom, desperta de vez!
   Aquelas palavras da mãe chegárom a se tornar umha realidade algum tempo depois, quando já a Ariadna, como dragoa adulta, foi viver para umha parte do bosque entre rochas. Ela procurou um lugar onde houvesse aqueles pós das rochas que lhe permitiam maquilhar-se e, ao mesmo tempo, um bom regueiro onde pudesse olhar-se. Encontrou-no ao cabo e ali ficou a viver.
   Mas a sua calma nom durou muito tempo, porque pouco tempo depois de se ter instalado, acertou a passar por ali um cavaleiro andante sobre o lombo dum velho cavalo branco que era o lar de milhares de moscas. Até o escudo que levava estava cheio de golpes e todo sujo, tanto que nem se sabia qual era a cor original. 
   A Ariadna estava daquela a se maquilhar, mesmo a provar-se umha espécie de peruca feita à base de balor de cor verde que lhe acaía muito bem com a cor dos seus olhos. Para isso, enxugara o balor com alento de dragom e depois criou umha espécie de tapete que ajustou à sua cabeça de dragoa. Que guapa se via assim! Foi nessa altura quando ouviu umha voz às suas costas que soava metálica porque saía de debaixo dum casco oxidado e que lhe berrava:
   – Prepara-te a morrer, dragom do inferno.
   E a seguir, umha peça da armadura caiu para o chão, fazendo bastante estrondo.
   A Ariadna virou-se e viu um cavaleiro pessimamente armado, a quem a metade da velha armadura lhe estava a cair para o chão, enquanto ele tentava segurá-la dalgumha maneira, mas naqueles tempos ainda nom existia a fita isolante.
   A dragoa quiso lançar umha laparada de lume contra aquele infeliz, mas nom gostava muito da ideia. Por outro lado, tratava-se da sua vida ou da daquele humano.
   Portanto, encheu os pulmões com ar e dispôxo-se a aventar lume...
   Espera!

   Exato, isso foi o que dixo o cavaleiro.

   Nom, eu digo que esperes, que hei ir ao banho (...)  Já está, podes continuar.

   – Espera! –gritou o cavaleiro.

   Isso já o contache.

   Tem paciência. 
   Depois desse berro, a dragoa detevo o seu ataque, mas entom veio-lhe o impo, porque deixara todo o lume dentro.
   E aí o cavaleiro quitou o casco daquela armadura que já praticamente era como umha lata de conservas.
   – Sou eu, Bob –dixo–. Quando te virache, reconhecim-te. És o único dragom que se maquilha.
   A Ariadna largou um grunhido, que queria dizer: “dragoa, que sou umha dragoa”. E depois largou outro, que o Bob entendeu perfeitamente.
   – Sabry? Que onde está a Sabry?
   Ai o Bob deixou-se cair no chão e já os restos da armadura marchárom por cadanseu lado.
   – Há anos que ando na tua busca –explicou o Bob–. Os meus pais obrigárom-me a entrar na escola de cavaleiros, ainda que eu nom queria. Porém, a Sabry pediu-me que te encontrasse, por isso aceitei ser cavaleiro, para te encontrar, porque és a melhor amiga que ela tevo nunca...
   Enfim, foi mui emocionante, até me vem vontade de chorar ao contá-lo...

   O que acontecera com a Sabry? Morrera ou quê? Casara com alguém e fora viver mui longe? Conta, ho!

   Deixa-me um momento, que nom podo prosseguir. Entrou-me algo no olho e saltam-me as bágoas. Vou ao banho um momentinho.

   Anda, vai e acaba depois esta estória, que nom podo esperar a saber como remata, porque já me dirás se é normal que umha dragoa se maquilhe. Onde tal se viu? Nom sei como podes ter tanta imaginaçom para contares umha estória tão incrível como esta... Eh, mas espera, espera, que já estou a entender. Tu dis que o Bob sabia fazer qualquer cousa com a madeira, como tu, que és o artesão com mais sona de toda a vila, tanto que até fás exposições. E depois está a dragoa, que sabia maquilhar-se muito bem, gostava mesmo do verde: a avoa tem os olhos verdes e até põe perucas verdes, é umha grande maquilhadora que ainda a chamam da televisom e dos concursos para maquilhar... Claro, agora entendo tudo, o que me contache é umha fantasia de como conheceche a avoa, que por riba é muda! É como a dragoa, que tampouco nom fala!
   Porém, só me resta saber umha cousa: quem é na realidade a tua irmã Sabry?

   Já estou aqui. Pois bem, se és tão inteligente, adivinha tu quem é a minha irmã Sabry nesta estória. E agora, a dormir. Boa noite.

   Avô, nom me deixes assim... quero que remates a estória, quero que a remates!

   Já é mui tarde. Pensa no nome de quem tu dizes que é minha irmã. Boa noite.

   Que pense no nome? Sabry? Sabry, Sabry, Sabry... soa a... brisa!

Frantz Ferentz, 2015

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