domingo, março 11, 2018

O LADRÃO DE TAREFAS [+10 anos]

Na casa do Nicolás acontecia algo muito estranho, mas apenas ele era capaz de o notar. Os adultos viviam felizes alheios a qualquer situação que o garoto sim notava, ou mais bem, sofria.
    Acontecia que, cada vez que ele fazia uma tarefa da escola à tarde, ela tinha desaparecido de manhã. Não se importava onde é que ele a deixava, pois na manhã seguinte ela já lá não estava. Podia escondê-la sob a almofada, no armário e fechar com a chave, entre os papéis do trabalho da mamã... Chegou mesmo a metê-las no autoclismo dentro de um saquinho plástico, mas mesmo assim as tarefas da escola desapareceram.
    "Quem me rouba as tarefas da escola nesta casa?" perguntou ele um dia.
    "Não se dizem essas coisas", replicou o papá. "Em casa ninguém rouba nada.
    Mas era evidente que alguém lhe roubava as tarefas da escola. Quando pensava nisso, encontrava que não tinha qualquer lógica que os adultos da casa lhe roubassem nada e tampouco a irmãzinha que tinha dois anos e cuja paixão era apanhar um lápis de cores ou um marcador e desenhar na primeira parede que encontrasse.
    Decerto se aquilo era uma piada não tinha qualquer graça, pois já na escola começou a ter sérios problemas. O professor Benjamim era capaz de botar faíscas pelos olhos quando um estudante não trazia as tarefas. Causava terror. Quando durante três semanas seguidas o Nicolás usou a mesma escusa para explicar que não tinha as tarefas feitas e que os castigos não serviam, dom Benjamim decidiu ter uma entrevista com os pais do Nicolás e também com a avó Marisa, que ia a toda a parte com eles, porque adorava sair de casa.
    É melhor não contar como foi a entrevista. Já vocês imaginam. O Nicolás foi seriamente amonestado. De nada serviram as suas escusas. Mas então decidiu que ele sozinho ia descobrir quem lhe roubava as tarefas. Ia aproveitar o fim de semana para atrapar o ladrão. Esperava ter tudo resolvido para a segunda-feira antes de ele ir para a escola.
    O Nicolás resolveu tender uma armadilha ao ladrão. Naquela noite da sexta-feira, adormeceu com umas tarefas falsas apegadas à sua barriga por baixo do pijama. Se alguém tentar roubar-lhe os papéis, ele ia notá-lo logo. Que o tentasse.
    Assim, ele adormeceu tranquilo. Quando acordou, a primeira coisa que fez foi procurar os papéis por baixo do pijama. Não estavam lá! Como assim? Não tinha notado absolutamente nada.
    Mas o Nicolás não se rendeu. Não, ele ia demostrar que não inventava escusas e que alguém decerto lhe roubava as tarefas. Embora a sua primeira estratégia tinha sido um insucesso, provaria uma outra coisa. De facto já tinha uma ideia.
    Para a seguinte noite fez com que as tarefas ficassem impregnadas de pintura vermelha. Como no quarto tudo estava às escuras, o ladrão não se aperceberia até sair do quarto. Aliás, havia tanta pintura que até escorregadia pelo chão e deixaria um rasto que de manhã seria fácil para seguir.
    É assim foi. De manhã cedo, o Nicolás comprovou que da mesa até a porta havia um rasto vermelho pelo chão. Quem levara as tarefas não estava ciente, mas mesmo assim não deixara pegadas.
    O rapaz saiu do quarto. Atravessou o limiar e foi para o corredor seguindo o rasto. Já estava para entrar na cozinha, quando no chão já não havia qualquer marca. O que é que se passava lá? Como podia desaparecer no meio do nada um rasto de pintura vermelha? Mas então chegou uma voz zangada até as orelhas do Nicolas:
    "Nicolásssssss, explica-me como é que o chão do teu quarto e do corredor tem todo esse risco vermelho! Não será sangue, eh?"
    Seria inútil explicar a mãe toda a história, porque não a acreditaria. Era melhor calar-se e receber um castigo. Mas na sua cabeça já estava a se formar um novo plano. Um plano infalível. Um plano definitivo.
    Para o levar a cabo, utilizaria a sua mais mortífera arma, aquela que reservava para ocasiões especiais. Antes de adormecer, preparou a armadilha. Depois, deixou a falsa tarefa escolar encima da mesa e deitou-se.
    Por volta das três da madrugada, o Nicolás acordou. Tinha ouvido vários espirros nalgum lugar da casa. Devia atuar depressa, antes de os pais acordarem. Os espirros continuavam a cada pouco. Mas não soavam como se eles fossem produzidos por um humano, mas talvez por um gato.
    No meio da noite, às escuras, o rapaz seguiu o rasto dos espirros. Os atchis soavam a cada vez mais perto. Seguiu pelo corredor até ao armário da entrada, uma massa enorme e escura que parecia um pequeno castelo encantado na casa, colocado ao lado da porta. Quanto medo lhe tinha causado a ele em pequeno. Pensava na altura que embora fosse um armário por fora, no seu interior cabia um castelo aterrador, com todo género de criaturas monstruosas.
    Aqueles temores voltaram a ele. Parecia que, com efeito, lá dentro morava uma criatura mágica, se calhar era mesmo aterradora. Nesse momento não teve dúvida que os espirros procediam do interior do armário. Hesitou. Era valente demais para afrontar o que houver lá dentro? Reconheceu que lhe punha medo, sim, mas logo lembrou-se dos muitos problemas que aquilo que havia dentro do armário lhe tinha causado.
    Finalmente resolveu chegar até ao fundo do assunto. Deu um passo para a frente, abriu a porta do armário de repente e...
    Nada. Não havia nada de anormal. Só havia roupa de inverno pendurada. E sapatos na parte inferior. Porém, logo ouviu novamente um espirro. Vinha do interior do armário. Não tinha dúvida. Algum bicho estava lá dentro muito bem escondido, se calhar perfeitamente camuflado.
    O Nicolás reagiu rapidamente. Prendeu a lanterna do seu telemóvel. Logo descobriu pedaços de papel muito pequenos no chão do armário. Não teve que se esforçar muito para reconhecer que eram fragmentos... das suas tarefas escolares desaparecidas nas últimas semanas!
    Lá estava o ladrão. Sim, mas onde exatamente?
    E de novo... atchis!
    O ladrão estava atrapado. Não podia escapar para nenhuma parte, embora não houvesse hipótese de o ver lá dentro. 
    De repente, um gato saltou sobre o Nicolás e a seguir fugiu pelo corredor, até se perder de vista.
    "Regressa, maldito ladrão!", gritou o rapaz e saiu atrás dele.
    Novamente houve tranquilidade no armário. Durante quase um minuto, lá dentro não se sentiu qualquer movimento. Depois, devagar, alguns saios começaram a se mexer. Não é que cobrassem vida, mas que um pequeno ser se deslocava entre eles com a intenção de sair do armário. Ainda teve vontade de espirrar, mas conseguiu não o fazer muito forte para não ser ouvido.
    Debaixo do braço levava um feixe de papéis. Não havia muitos, mas com isso lhe chegaria para o pequeno-almoço. Ele adorava o sabor do papel em que se faziam as tarefas escolares, pois, antes de as comer, sempre as lia e até apreendia coisas novas.
    Embora ele fosse invisível para o olho humano, poderia ser descoberto por eles. Portanto, nos lares humanos tentava viver sem ser notado. No entanto, aquele rapaz esteve para o acurrarar naquele armário graças àqueles pós para espirrar. Muito inteligente. Mas ele tinha sido ainda mais inteligente e tinha conseguido capturar o gato da vizinha no último momento para usá-lo como bode expiatório.
    Naquela altura tinha saído incólume da armadilha, mas para a próxima ocasião, devia estar muito mais atento…

© Frantz Ferentz, 2018


terça-feira, março 06, 2018

DE ONDE VEÑEN AS LLAMAS?

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   O Miguel estaba fascinado con aquel animal que tiña ante si. A súa cabeza ficaba máis alta ca el e o pescozo do animal era longo demais. Ambos se contemplaban mutuamente, con curiosidade. O animal, cuxo corpo estaba todo cuberto de las, de vez en cando baixaba a cabeza até o chan para arrancar herba e mastigala.
   "Gustas da llama?", preguntou unha voz por tras do Miguel. Era o seu avó Evaristo, que quedara á espreita do neto e do animal- 
"Chámase", respondeu o ancián. "Son unhas criaturas incríbeis. Dan la, carne e serven para axudar os labregos dos Andes.
   A llama ouvía todo o discurso sen parar de mastigar. Escoitaba e mexía a cabeza, como se asentise.
   Mal había dúas semanas que o Miguel e a súa familia, incluído o avó, chegaran a Quito. Todo estaba a ser novo para o rapaz, mais probabelmente aquel animal, que pacía tranquilo a poucos quilómetros da cidade era o máis exótico que vira até daquela.
   "E de onde veñen as llamas?", preguntou o Miguel ao avó.
   O avó aclarou a gorxa e explicou:
   "As llamas son animais mitolóxicos. Cando os españois chegaron a América, trouxeron ovellas e cabalos entre outros moitos animais. E conta a lenda que, nunha noite de lúa chea, un cabalo e unha ovella se apaixonaron nunha floresta dos Andes. Escaparan para vivir xuntos e do seu amor naceu unha criatura diferente", explicou o avó. "Olla ben como a cabeza da llama é a dunha ovella, mais o seu corpo é o dun cabalo, aínda que cuberto de las. Desde aquela, as llamas poboaron os Andes".
   E sen máis, o avó virouse e deixou o seu neto só coa llama, que continuaba a mastigar herba. Cando xa os dous estiveron sós, o humano e a llama, o animal parou de mastigar e dixo:
   "O teu avó ten unha fantasía extraordinaria...Eu non che son ningún fillo de ovella e de cabalo, son parente dos camélidos da África e da Asia".
   Miguel fitou para ela sen dar crédito.
   "Dixeches algo?", preguntou o rapaz.
   Mais a llama xa non respondeu. Simplemente continuou a masgar na herba, como se aquilo non fose con ela.

© Frantz Ferentz, 2018