quinta-feira, fevereiro 13, 2020

A PRIMEIRA E ÚLTIMA CONTADORA DE ESTÓRIAS

Resultat d'imatges per a "guacamayo"

O grande Icquatchú aclarou a garganta e disse:
“Ontem à noite pedi aos nossos devanceiros para me fornecerem com estórias desta nossa terra milenária e tal como eles me contaram, eu conto-vos”.
Na altura, começou a contar uma antiga história de vulcões apaixonados e de lagos ciumentos.
Todos os rapazes da aldeia escutavam a nova estória, sem pestanejarem, em círculo, sentados no chão, sob o céu estrelado, com uma fogueira no meio.
Quando Icquatchú acabou, Belver falou:
“Mestre Icquatchú, por acaso poderias contar-nos amanhã uma estória sobre o mar?”
Toda a rapaziada fitou para aquela rapariga estranha. Nenhum deles, nem o próprio Icquatchú, embora fosse centenário, ouviram nunca falar no mar. Era uma estranha palavra.
“Como aprendeste essa palavra?”, perguntou o mestre Icquatchú, mas o seu tom de voz não mostrava bom humor, mais o bem contrário.
“O rio falou-me no mar”, explicou a menina. “Ele contou-me como viaja, como desce rápido as nossas montanhas até alcançar a floresta, para depois continuar lentamente até o lugar onde se une com a água que não termina, que ele chama mar”.
Icquatchú poderia ter dito que tudo era produto da imaginação da miúda, mas Belver era a sua neta, pertencia à sua casta de contadores de estórias, estórias que tinham o dom de escutar diretamente dos espíritos e da natureza. Ser o contador de estórias era um dos privilégios mais grandes da tribo. Era quase tão importante como ser xamã.
O grande mestre contador de estórias sabia que algum dia a sua neta ocuparia o seu lugar na tribo, onde contar estórias tinha uma importância muito grande. Porém, a miúda não percebia qual o verdadeiro sentido dessa tarefa.
“Não vou contar qualquer estória que não tenha a ver com a nossa tradição, com a nossa realidade, estás a perceber?”, respondeu chateado Icquatchú a olhar fixamente para a sua neta, mas era um aviso para todos os rapazes da aldeia, se por acaso sonhavam com escutar estórias que não falassem de condores, vulcões, lagos, espíritos dos antenados ou a mãe terra ou o pai sol”.
Aquelas palavras tiveram um efeito imediato na alma de Belver. 
Quando, no dia seguinte, a sua mãe foi buscá-la, ela não estava deitada na sua esteira. E já não foi vista mais. Tinha desaparecido da vista de todos.
Entretanto, Belver tinha abandonado a aldeia. Tomara rumo à floresta, para conhecer outros povos que conhecessem outras estórias. E assim viajou durante meses, até alcançar as vilas e cidades, onde pôde nem só os avôs e as avós contarem contos, mas também aqueles que no meio das ruas cheias de pó, entre viaturas, contavam estórias por umas moedas.
Belver, para além de escutar e recordar estórias de todo género, começou a fazer amizade com as escandalosas araras. Tudo se iniciou quando salvou uma delas de ser vendida no mercado. Cortaram-lhe as asas para não poder voar, mas Belver, aproveitando um descuido do vendedor, escapou com a arara pousada no seu ombro, enquanto se organizava um escândalo terrível por toda a ruela, perseguida primeiro pelo vendedor da ave, que gritaba coisas muito feias à ladra, e depois o resto de comerciantes que também a perseguiam, embora não soubessem porquê. 
Porém, a arara conhecia muito bem a cidade. Começou a indicar à rapariga por onde ir: “agora à esquerda... sobe por essas escadas... vai por esse corredor... salta! Agora à direita, ainda à direita...”
Foi uma corrida maluca, mas após dez minutos, Belver sentava na areia da praia com a arara no seu ombro. E lá se estendia aquela massa de água infinita, mais grande do que qualquer lago que tinha visto nunca, com suaves ondas.
“O que é isso?”, perguntou Belver
“O mar”, respondeu a arara.
A menina fez festas no peito da ave com um dedo e perguntou-lhe:
“Como é que te chamas?”
“Não tenho nome”.
A miúda ficou a pensar um instante. Depois disse:
“Posso chamar-te Mar?”
“Porquê?”
“Porque tu me mostraste o mar pela primeira vez”.
E assim ficou.
Depois de vários meses de conhecer outras partes do continente, Belver começou a ter saudades de casa. Decidiu voltar, mas não o fez sozinha. Regressou com Mar e todos os papagaios que iam encontrando pelo caminho, pois todos estavam curiosos de conhecer como eram aquela imensas montanhas onde morava a menina com a sua família.
Durante as longas caminhadas, a menina aproveitava para contar aos papagaios todas as estórias que tinha ouvido. Não queria esquecê-las e, ao mesmo tempo, queria praticar a arte de contar contos, pois esse seria o seu empenho na aldeia quando o seu avô faltar.
Belver chegou à aldeia quando Icquatchú tinha toda a rapaziada reunida ao redor do lume, enquanto lhes contava a estória de amor de um colibri e um raio de lua. Os rapazes gostaram da estória, muito, via-se nos seus rostos.
E quando o contador terminou a sua narrativa, Belver disse:
“Eu posso contar-vos a estória de uma vendedora de abraços no mercado da cidade, ou se preferirem, a estória de dragão que quis ser astronauta”.
Os rapazes nem sabiam de que estava a falar Belver, mas soava interessante. Porém, ao grande Icquatchú tudo aquilo soou como uma grave ofensa. Bateu palmas e ordenou às crianças irem para casa.
“Como ousas?”, perguntou o avô à neta quando estiveram sozinhos.
“Avozinho, o mundo é muito mais grande do que este vale nosso. Há montes de coisas lá fora e há estórias maravilhosas que eu ouvi”.
“Cá só se ouvem as estórias que nos inspiram os espíritos e que falam da nossa tradição, da nossa terra, já te disse mil vezes!”
Os protestos de Belver não serviram para nada. O avô convenceu o cacique para banir que a neta pudesse contar qualquer estória até ela não compreender qual o valor autêntico da tradição. Deveu ficar em casa, fechada, apenas com a companhia do seu amigo Mar.
“Não fiques triste”, consolou a arara. “O que tem de ser, será”
“O que queres dizer?”, perguntou Belver.
Mas a arara não disse mais nada. Só deu um pulo e saltou pela janela para fora. 
Assim, quando na seguinte noite, o grande Icquatchú quis contar a sua estória, encontrou que nenhum rapaz ou rapariga da aldeia estava ao redor do lume à espera do seu conto.
“Onde diabos foram todos?”, perguntou-se.
Mal se deslocou para fora da aldeia quando viu que a rapaziada estava sentada ao pé do bosque. Sobre uma rocha imensa, estava pousado Mar, que na altura contava contos de coisas desconhecidas à rapaziada, coisas como um submarino que sulcava o mar por debaixo da superfície e por vezes tinha vontade de espirrar. Ou uma baleia que queria ser dançarina.
O grande Icquatchú pediu para os guerreiros acabarem com aquela maldita arara, a qual fugiu por um pelo e se refugiu no quarto de Belver.
Mas quando no dia seguinte convocou os rapazes ao redor do fogo, também não apareceu nenhum. E não estavam ao pé da rocha.
O velho contador de contos desesperava, não entendia como era possível. Tratava-se por acaso de algum feitiço?
Mas não, cada rapaz estava em sua casa.
E cada um deles, ouvia uma estória de lugares longínquos ou não tão longínquos, que um papagaio lhe contava.
Frantz Ferentz, 2020