quinta-feira, fevereiro 20, 2020

ABDUL AL-GHANDUL, UM GÉNIO AZUL

Resultat d'imatges per a "GENIE"

Prosódio García dispôs-se a introduzir o seu cartão no multibanco. Marcou o código e espero que saísse a seguinte tela, a que dava opções de operar. Mas não aconteceu o que esperava. Não. Aconteceu algo inesperado.
Pela ranura das notas saiu um fuminho azul, que pouco a pouco foi tomando a forma de um ente, com cabeça gorda, corpo miúdo, mas sem pernas, porque em seu lugar tinha uma espécie de rabinho, como de pescado, mas sem nadadeiras ao final. O ente em questão, com os braços cruzados, disse:
– Olá, sou Abdul al-Ghandul, génio deste multibanco.
Prosódio não dava crédito. Um génio? E num multibanco? Apresar do estupor que lhe causava a situação, perguntou:
– Talvez os génios não vivam em lâmpadas?
– Pois, mas a minha foi roubada há tempo.
– E por que moras num multibanco? – inquiriu Prosódio.
– É uma longa história, mas vou-te contar resumidamente. Acontece que venho de um campo de génios no meio do deserto, mas num bom dia, ha alguns anos, uns caçadores de tesouros encontraram a minha lâmpada num templo subterrâneo. Trouxeram-me para cá na lâmpada e venderam-na. Limparam-na com terebintina, com o qual me expulsaram do meu lar, pelos gases, que são irrespiráveis até para os génios. Enfim, quando me dei conta, estava no meio da rua, sem a minha lâmpada. Quanto precisava de um lar urgentemente. Então vi que a gente ia aos multibancos para satisfazer os seus desejos. Não hesitei, fiquei a viver neste multibanco, porque aqui posso satisfazer os desejos das pessoas. No meu caso, estou associado ao teu cartão de crédito.
– Ah, muito bem – exclamou Prosódio –. Isso significa que te posso pedir três desejos, como nas fábulas?
– Claro!
Prosódio mantinha-se um pouco céptico. Suspeitava que aquilo tinha truque, que talvez se tratasse de um programa de câmara oculta, mas decidiu arriscar-se. Se era uma brincadeira, rir-se-ia; se não, quem sabe.
– Está bem. Este é meu primeiro desejo: quero ser rico, imensamente rico.
O génio sacudiu a cabeça e disse:
– Deixa-me dar-te um conselho de amigo: não peças dinheiro. Desde que moro no multibanco, sei como funciona isto. Verás, o Ministério das Finanças pode ficar com a maioria do dinheiro e, se não consegues explicar a sua procedência, até te pesquisarão, serás suspeito de narcotráfico, ou branqueamento de capitais, ou qualquer outro crime.
Prosódio ficou a pensar.
– E então, o que peço?
– Permite-me aconselhar-te – disse Abdul a o-Ghandul –. Pede só aquilo que desejes muito.
– Está bem. Quero: uma casa nova de três andares, um teco-teco para viajar onde eu quiser e... – lá ficou a pensar um momento.
– E? – perguntou o génio.
– É que não sei – hesitou Prosódio.
– Lembra – disse Abdul al-Ghandul –, algo que desejes muito.
– E o melhor amigo que se possa ter – concluiu Prosódio.
– Concedido.
Nesse momento, perante Prosódio apareceram três objetos: uma espécie de casa de bonecas, uma maqueta grande de um teco-teco e... uma espécie de androide. Mas os três objetos tinham algo em comum. Estavam feitos do mesmo material. Estavam fabricados com livros!
Prosódio ia dizer algo, ia pedir explicações a Abdul al-Ghandul, mas então, uma mão lhe agitou o ombro e acordou. Tinha adormecido de pé em frente ao multibanco. Uma senhora zangada disse-lhe:
– Acorde já, que outros queremos usar o multibanco.
Por trás de Prosódio havia já uma bicha considerável de gente a aguardar para levantar dinheiro. Que vergonha. Como podia ter tido aquele sonho ainda por cima de pé?
– Ouça – chamou a senhora indignada a Prosódio enquanto ia embora –, não se esqueça do cartão e dos dez euros...
Prosódio chegou a casa meia hora mais tarde. Meteu a chave na fechadura, abriu, avançou pelo corredor e... e quase se bateu contra o rosto da sua esposa, Plinia, que esperava por ele com cara de poucos amigos.
Ele tentou dar-lhe um beijo, mas ela afastou-se e grunhiu.
– Mas o que se passa?
– Que o que se passa? Vem e explica-me tu...
E sem mais, ela agarrou do antebraço o seu marido e levou-o até onde um momento antes estava o despejo, mas que já não era um despejo, mas uma biblioteca enorme, bem provista, com livros do chão até ao teto.
– E isto? ––perguntou Prosódio.
– Tu é que sabes. Veio aqui um sujeito azul, parecia saído de uma festa de disfarces. Disse que trabalhava para o banco e que vinha da tua parte. Deslizou-se em casa sem que eu o pudesse deter, esteve a bisbilhotar por toda a parte. Meteu-se no despejo, fechou a porta, soaram uns golpes, saiu e foi embora. Quando entrei no despejo, encontrei isso – e acenou para a biblioteca.
Prosódio compreendeu que não tinha sido uma alucinação. Tudo tinha sido real.
– E não te disse mais nada?
– Ah, sim – lembrou Plinia –. Antes de ir embora, disse que nos livros encontrarás todos os teus desejos e mais... e algo acerca de que eles são amigos que nunca falham e que neles está a autêntica magia. Podes explicar-me?
Mas Prosódio limitava-se a mordiscar as esquinas do cartão de crédito.

Frantz Ferentz, 2020

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

A PRIMEIRA E ÚLTIMA CONTADORA DE ESTÓRIAS

Resultat d'imatges per a "guacamayo"

O grande Icquatchú aclarou a garganta e disse:
“Ontem à noite pedi aos nossos devanceiros para me fornecerem com estórias desta nossa terra milenária e tal como eles me contaram, eu conto-vos”.
Na altura, começou a contar uma antiga história de vulcões apaixonados e de lagos ciumentos.
Todos os rapazes da aldeia escutavam a nova estória, sem pestanejarem, em círculo, sentados no chão, sob o céu estrelado, com uma fogueira no meio.
Quando Icquatchú acabou, Belver falou:
“Mestre Icquatchú, por acaso poderias contar-nos amanhã uma estória sobre o mar?”
Toda a rapaziada fitou para aquela rapariga estranha. Nenhum deles, nem o próprio Icquatchú, embora fosse centenário, ouviram nunca falar no mar. Era uma estranha palavra.
“Como aprendeste essa palavra?”, perguntou o mestre Icquatchú, mas o seu tom de voz não mostrava bom humor, mais o bem contrário.
“O rio falou-me no mar”, explicou a menina. “Ele contou-me como viaja, como desce rápido as nossas montanhas até alcançar a floresta, para depois continuar lentamente até o lugar onde se une com a água que não termina, que ele chama mar”.
Icquatchú poderia ter dito que tudo era produto da imaginação da miúda, mas Belver era a sua neta, pertencia à sua casta de contadores de estórias, estórias que tinham o dom de escutar diretamente dos espíritos e da natureza. Ser o contador de estórias era um dos privilégios mais grandes da tribo. Era quase tão importante como ser xamã.
O grande mestre contador de estórias sabia que algum dia a sua neta ocuparia o seu lugar na tribo, onde contar estórias tinha uma importância muito grande. Porém, a miúda não percebia qual o verdadeiro sentido dessa tarefa.
“Não vou contar qualquer estória que não tenha a ver com a nossa tradição, com a nossa realidade, estás a perceber?”, respondeu chateado Icquatchú a olhar fixamente para a sua neta, mas era um aviso para todos os rapazes da aldeia, se por acaso sonhavam com escutar estórias que não falassem de condores, vulcões, lagos, espíritos dos antenados ou a mãe terra ou o pai sol”.
Aquelas palavras tiveram um efeito imediato na alma de Belver. 
Quando, no dia seguinte, a sua mãe foi buscá-la, ela não estava deitada na sua esteira. E já não foi vista mais. Tinha desaparecido da vista de todos.
Entretanto, Belver tinha abandonado a aldeia. Tomara rumo à floresta, para conhecer outros povos que conhecessem outras estórias. E assim viajou durante meses, até alcançar as vilas e cidades, onde pôde nem só os avôs e as avós contarem contos, mas também aqueles que no meio das ruas cheias de pó, entre viaturas, contavam estórias por umas moedas.
Belver, para além de escutar e recordar estórias de todo género, começou a fazer amizade com as escandalosas araras. Tudo se iniciou quando salvou uma delas de ser vendida no mercado. Cortaram-lhe as asas para não poder voar, mas Belver, aproveitando um descuido do vendedor, escapou com a arara pousada no seu ombro, enquanto se organizava um escândalo terrível por toda a ruela, perseguida primeiro pelo vendedor da ave, que gritaba coisas muito feias à ladra, e depois o resto de comerciantes que também a perseguiam, embora não soubessem porquê. 
Porém, a arara conhecia muito bem a cidade. Começou a indicar à rapariga por onde ir: “agora à esquerda... sobe por essas escadas... vai por esse corredor... salta! Agora à direita, ainda à direita...”
Foi uma corrida maluca, mas após dez minutos, Belver sentava na areia da praia com a arara no seu ombro. E lá se estendia aquela massa de água infinita, mais grande do que qualquer lago que tinha visto nunca, com suaves ondas.
“O que é isso?”, perguntou Belver
“O mar”, respondeu a arara.
A menina fez festas no peito da ave com um dedo e perguntou-lhe:
“Como é que te chamas?”
“Não tenho nome”.
A miúda ficou a pensar um instante. Depois disse:
“Posso chamar-te Mar?”
“Porquê?”
“Porque tu me mostraste o mar pela primeira vez”.
E assim ficou.
Depois de vários meses de conhecer outras partes do continente, Belver começou a ter saudades de casa. Decidiu voltar, mas não o fez sozinha. Regressou com Mar e todos os papagaios que iam encontrando pelo caminho, pois todos estavam curiosos de conhecer como eram aquela imensas montanhas onde morava a menina com a sua família.
Durante as longas caminhadas, a menina aproveitava para contar aos papagaios todas as estórias que tinha ouvido. Não queria esquecê-las e, ao mesmo tempo, queria praticar a arte de contar contos, pois esse seria o seu empenho na aldeia quando o seu avô faltar.
Belver chegou à aldeia quando Icquatchú tinha toda a rapaziada reunida ao redor do lume, enquanto lhes contava a estória de amor de um colibri e um raio de lua. Os rapazes gostaram da estória, muito, via-se nos seus rostos.
E quando o contador terminou a sua narrativa, Belver disse:
“Eu posso contar-vos a estória de uma vendedora de abraços no mercado da cidade, ou se preferirem, a estória de dragão que quis ser astronauta”.
Os rapazes nem sabiam de que estava a falar Belver, mas soava interessante. Porém, ao grande Icquatchú tudo aquilo soou como uma grave ofensa. Bateu palmas e ordenou às crianças irem para casa.
“Como ousas?”, perguntou o avô à neta quando estiveram sozinhos.
“Avozinho, o mundo é muito mais grande do que este vale nosso. Há montes de coisas lá fora e há estórias maravilhosas que eu ouvi”.
“Cá só se ouvem as estórias que nos inspiram os espíritos e que falam da nossa tradição, da nossa terra, já te disse mil vezes!”
Os protestos de Belver não serviram para nada. O avô convenceu o cacique para banir que a neta pudesse contar qualquer estória até ela não compreender qual o valor autêntico da tradição. Deveu ficar em casa, fechada, apenas com a companhia do seu amigo Mar.
“Não fiques triste”, consolou a arara. “O que tem de ser, será”
“O que queres dizer?”, perguntou Belver.
Mas a arara não disse mais nada. Só deu um pulo e saltou pela janela para fora. 
Assim, quando na seguinte noite, o grande Icquatchú quis contar a sua estória, encontrou que nenhum rapaz ou rapariga da aldeia estava ao redor do lume à espera do seu conto.
“Onde diabos foram todos?”, perguntou-se.
Mal se deslocou para fora da aldeia quando viu que a rapaziada estava sentada ao pé do bosque. Sobre uma rocha imensa, estava pousado Mar, que na altura contava contos de coisas desconhecidas à rapaziada, coisas como um submarino que sulcava o mar por debaixo da superfície e por vezes tinha vontade de espirrar. Ou uma baleia que queria ser dançarina.
O grande Icquatchú pediu para os guerreiros acabarem com aquela maldita arara, a qual fugiu por um pelo e se refugiu no quarto de Belver.
Mas quando no dia seguinte convocou os rapazes ao redor do fogo, também não apareceu nenhum. E não estavam ao pé da rocha.
O velho contador de contos desesperava, não entendia como era possível. Tratava-se por acaso de algum feitiço?
Mas não, cada rapaz estava em sua casa.
E cada um deles, ouvia uma estória de lugares longínquos ou não tão longínquos, que um papagaio lhe contava.
Frantz Ferentz, 2020

quarta-feira, outubro 02, 2019

OS PEIDOS DO EMPERADOR

Así que o Hermenéutico V foi proclamado emperador, comezou o pesadelo dos seus súbditos. 
O monarca tiña o costume botar peidos en toda a parte. Normalmente eran deses sen son, mais que cheira horríbeis. Ninguén ousaba dicir nada, faltaría, mais en privado os cortesáns comentaban. Os murmurios chegaron a ouvidos do rei, que convocou os membros da corte e díxolles:
– Sei que pensades que eu boto peidos, mais de certo é a miña colonia, que está na moda en París. Chámase Vent d’Intestin
Así que o emperador dixo aquilo, todos os cortesáns comezaron a botar peidos e conservalos en frasquiños de vidro. Se era moda de París, había que a seguir. 
Aumentou o consumo de feixóns en todo o reino. A xente que máis peidos largaba gañaba moitos cuartos. Houbo quen conseguiu engarrafar peidos de vaca que teñen moito gas metano. O cheiro a peido tornouse o perfume da corte imperial. 
Por iso, non vos debe estrañar que, cando os revolucionarios entraron no palacio e quixeron derrocar o monarca, houberon dar media volta porque saíron intoxicados e agardaren aínda uns séculos até as máscaras de gas seren inventadas. 
© Frantz Ferentz, 2019

domingo, agosto 25, 2019

FUGA DE IDEAS

Harmónica García acudiu onda o doutor. Tiña un grave problema. As ideas fuxíanlle. Ela era compositora. Mais desde había dúas semanas, así que lle nacía unha idea, ela escapaba. 
– Escápanme as ideas, doutor –dixo ela e contoulle a súa desgraza. 
O doutor Alquimio López, moi observador, viu como segundo falaba ela, saíalle un fumiño leve polas orellas. O doutor, sen o pensar dúas veces, colocoulle uns tapóns nas orellas. 
– Resolvido o seu problema –anunciou el. 
– O que di? –perguntou a Harmónica–.  Non lle ouzo nada. 
E daquela el notou que a ela o fumiño lle escapaba polo nariz e pola boca. 
– Amiga, mellor que lle escapen as ideas que non que morra afogada –explicou el, mentres collía unha aspiradora pequena e tentaba capturar os fumiños que lle escaparan á muller e que aboiaban pola consulta.
© Frantz Ferentz, 2019

sábado, agosto 24, 2019

O ESCRITOR DE HISTORIAS DE TERROR

O escritor, todo concentrado, pensaba nunha historia acerca de seres fantásticos. Tiña necesidade de a escribir. De repente, sentiu uns pasos polo corredor e ruídos polos recantos máis profundos da casa. Berrou:
– Non quero distraccións! 
Daquela, un trasno que penduraba do teito dixo ao seu parceiro:
– E logo, nós por que nos escondemos? 
– Porque distraemos o humano...
© Frantz Ferentz, 2019

sábado, maio 04, 2019

O REI E O PEÓN


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   O rei chantouse perante o peón.
   – Algún desexo antes de morreres? –preguntou o rei.
   – Só quero ser humano uns segundos.
   O rei sorriu. Pensou que o peón era un estúpido.
   – Outorgado.
  De repente, o peón era un neno e o rei era un home adulto. Sen hesitar, o neno deu un puntapé ao rei na canela. O rei caeu o chan e retorceuse de dores. Axiña, o neno e o rei tornaron a ser figuras de xadrez.
   Só daquela, o mestre Pelakov decatouse que o seu rei caera no tabuleiro e que o peón, inexplicabelmente, provocara o xaque mate.

© Frantz Ferentz, 2019

terça-feira, abril 30, 2019

KATKA E O VIRUS DO CHOCOLATE


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Érase a Katka que tivo un virus. Só era un e moi novo. O virus pretendía comportarse moi serio, como se el só fose todo un angazo. Por iso, o pequeno virus percorría as veas da Katka, a tentar dar a aparencia que centenares de virus ocupaban o seu corpo. Mais iso era a máis. O virus era moi novo e carecía de experiencia.
   Con todo, a Katka si sentiu que tiña un virus no corpo e pensou que caera doente. Non tiña unha aspirina á man, daquela tomou media onza de chocolate. Por algunha estraña razón, ela pensara que o chocolate lle funcionaría como remedio.
   O virus cheirou o chocolate a fundir no estómago da Katka da que estaba a tomar folgos na úvula da rapaza. Deixouse esvarar até o estómago. Nunca probara o chocolate, mais cheiraba delicioso.
   Desde ese día, o virus incomodou a Katka un bocadiño todos os días, de xeito que ela axiña tomaba chocolate. Axiña o virus acougaba. Que boa vida ía ter o virus para sempre. 
   Porén, unhas semanas máis tarde, unha tribo de bacterias achegouse do nariz da Katka. Axiña notaron o cheiriño delicioso que saía da rapariga. Elas non sabían que aquel recendo viña do chocolate, mais ían descubrilo logo.
   Aos poucos, a Katka comezou a tusir violentamente. Sentíase moi mal. As bacterias tencionaban ocupar o corpo da Katka, mais o virus non estaba pronto para partillar o chocolate con estraños, máis aínda con criaturas vindas de fóra. De seguida notou que as bacterias gustaban do chocolate, de modo que foi facendo trapazas para elas caer, unha tras outra. No final, deu atrapado todas as bacterias e comeu nelas envurulladas en chocolate.
   De repente, a Katka sentiuse moito mellor. Estaba certa que o chocolate era unha menciña fabulosa, de xeito que non parou de comer nel.
   Hoxe, o virus da Katka sofre de sobrepeso, mais non hai bacteria que ouse invadir o corpo da Katka por causa do chocolate.

© Frantz Ferentz, 2019

sábado, novembro 24, 2018

CHEIROS DE DESTRUCIÓN MASIVA


O Emilio estaba moi atento á Carla.
A Carla era a campioa da cidade en lanzamento de dardos.
Aquel era un día moi importante para ela, porque o liderado estaba en xogo.
Xurdira unha grande rival, a Mariantonieta.
A Mariantonieta era unha total descoñecida que comezara o campionato sen que ninguén apostase por ela, mais chegara á final.
E agora, tocáballe medirse coa campioa actual, a Carla.
O Emilio estaba apaixonado pola Carla.
Ía apoiala até a fin.
Entón, a Carla lanzou.
Tres dardos ficaron moi perto do centro.
E un algo fóra.
Fixo 27 puntos.
Era boa marca.
A coitada dela suaba.
O Emilio quixo abrazala para lle transmitir coraxe, mais ela non quixo, estaba moi pendente do que faría a Mariantonieta, que parecía tranquila.
─ Se non perde a concentración, é capaz de me gañar ─dixo a Carla entre dentes.
O Emilio sentiu aquelas palabras.
Faría o que fose mester para que a súa namorada gañase.
E sabía como.
Afastouse da Carla e lentamente foi achegándose da Mariantonieta.
A Mariantonieta contemplaba a diana como se fose un pastel de crema, porque se relambía.
Facía cálculos.
Si, era realmente boa.
Entón o Emilio comezou o seu plano de "desconcentración".
Primeiro descalzou un zapato.
A seguir o outro.
Xa non descalzou máis, porque só tiña dous pés.
De repente, arredor da Mariantonieta comezou a se espallar un fortísimo cheiro a pés.
A xente en derredor afastouse.
Era inaturábel.
Algúns tusían e alguén mesmo esvaeceu.
O dono do bar onde se celebraba o concurso chamou os bombeiros e a unidade de prevención da guerra biolóxica.
Porén, a Mariantonieta non pareceu notar aquela peste.
Non perdeu a concentración nin por un segundo.
Lanzou o primeiro dardo.
Lanzou o segundo dardo.
Lanzou o terceiro dardo.
Lanzou o cuarto dardo.
Os catro foron directamente ao centro.
Corenta puntos.
O máximo.
Xa non había case xente para aplaudir, o pouco público que non fuxira ou se esvaecera estaba a máis de dez metros da Mariantonieta.
Só o Emilio estaba ao cabo, pois el si era inmune ao seu propio cheiro dos pés.
Até se diría que gustaba del.
Por iso, non puido evitar a curiosidade e, despois de calzar os seus zapatos, preguntou:
─ Oi, como é que non che inflúe o cheiro podre de pés? Seica non tes olfacto?
─ Nada diso ─respondeu a rapariga─. O que acontece é que este cheiriño é moi suave comparado con outro cheiro que eu coñezo.
─ O cal? ─perguntou o Emilio morto de curiosidade.
Aí xa a Mariantonieta quitou un só zapato dela e dixo:
─ Con este.
Todos os presentes na sala fuxiron ás carreiras a conteren a respiración.
Nin cinco autobuses na sala producirían aquela peste.
O Emilio, porén, tivo que ser hospitalizado por intoxicación, porque era a persoa que estaba máis próxima do foco do cheiro.
As unidades de prevención de ataques biolóxicos puxeron toda a cidade en corentena.
Toda a atmosfera da cidade estaba poluída.
Da Mariantonieta xa ninguén soubo máis nada.
E é mágoa, porque, embora lle cheirasen os pés así, era verdadeiramente boa no lanzamento de dardos.

© Frantz Ferentz, 2018

quarta-feira, novembro 21, 2018

CANDO XULIA CHEGA TARDE

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Era unha vez a Xulia.
A Xulia era unha rapaza normal, excepto por unha cousa.
Chegaba sempre tarde, sempre, sempre, sempre ...
Este feito era case un escándalo para a súa familia, xa que todos eran puntuais demais.
O seu pai era tan puntual como un reloxo suízo, polo que sempre fixo "cucú".
Mais o que incomodaba as persoas que coñecían a Xulia eran as desculpas que daba cando chegaba tarde, había centos delas!
Podería dicir, por exemplo: "Hoxe veño tarde porque, mentres camiñaba, a terra tivo un ataque de impo e o tránsito parou".
Ou ben: "Hoxe eu estou atrasada porque o universo enlouqueceu e o día se tornou noite, entón eu non podía ver nada ..."
Ou aínda: "Hoxe un crocodilo baixou dun autobús e comezou a danzar no medio da rúa, polo que se produciu un enorme engarrafamento ...
Na casa, dixéronlle que non podería continuar así, que a puntualidade era unha característica da familia, porque todos, non só o pai que facía "cucú", mais todos eran coñecidos na cidade por seren a familia máis puntual.
─ Se chegas tarde ─explicou a avoa Bernardina─, fas con que aqueles que agardan por ti pensen que non che importan.
─ Non é verdade, avoa ─queixouse a Xulia─. Non chego tarde porque quero.
E no instituto...
A cousa foi aínda peor alí.
A profesora Findomundo non facía máis que castigar a Xulia polos seus constantes atrasos.
Nunca serás un adulto serio se non chegas a tempo ─dicíalle a miúdo.
─ Mais non é culpa miña, profesora ─pedía desculpas─. Hoxe, por exemplo, eu non vin a tempo, porque o ceu caeu na terra ...
─ Se tiveses tanta seriedade coma imaxinación, serías a mellor estudante do instituto ─remataba sempre dicindo a profesora Findomundo.
A coitada Xulia estaba moi triste.
Ninguén cría os motivos que daba.
Todos pensaban que estaba chea de fantasía, mais non era verdade.
Non se demoraba por pracer!
En calquera caso, a profesora Findomundo chamou os pais da Xulia.
Señor e señora García ─dixo─, creo que todos estamos moi preocupados pola súa filla, que sempre se demora, non é?
A nai simplemente dixo "si" e o ​​pai fixo "cucú".
No entanto, suxiro que descubramos o que está a acontecer coa súa filla ─explicou a profesora aos pais─. Teño un plano, mais para o desenvolver preciso da súa axuda.
Que hai que facer?─preguntou a nai.
Colocarlle unha microcámara no gorro de la da Xulia para ver cales son os motivos reais por que sempre chega tarde", dixo a profesora. "Así, nunca poderá usar unha escusa absurda, o que pensan?
O pai fixo "cucú", o que significaba que aceptaba.
Tamén á nai lle parecía unha grande idea.
Entón, fixeron o que a profesora lles dixo: colocaron unha microcámara no gorro de la da Xulia sen que a rapaza notase.
E decorreron tres días.
En tres días, a Xulia chegou tres veces tarde.
Por que chegas tarde, filla? ─preguntou a súa nai.
A Xulia explicou:
─ A primeira vez porque un dinosauro me preguntou pola hora, mais estaba moi xordo, non me escoitou, daquela acompañeino até a Praza Maior para que puidese ver o reloxo grande.
» A segunda vez ─continuou a rapaza─, a terra botou un peido horríbel e a rúa ergueuse uns metros. Entón cortaron a circulación, mesmo para os peóns. Estabamos todos moi asustados.
» E a terceira vez, o avión azul chegou tarde, así que non puiden chegar ás aulas a tempo.
A mamá estaba moi alporizada, a nena dixera que fora para as aulas nun avión azul, non vermello, verde ou amarelo, mais azul ...
Tivo que recoñecer que a fantasía da súa filla chegaba a extremos incríbeis.
Sen dicir unha palabra, tomou a súa filla polo brazo e ambas foron onda a profesora.
Aquí estamos ─anunciou a señora García─. Agora podemos ver por que miña filla está atrasada.
A nai entregou unha memoria USB á profesora, que inmediatamente a meteu na computadora.
Inmediatamente comezaron a ver as imaxes gravadas coa cámara secreta.
En primeiro lugar, viron un home vestido cun traxe de T-Rex que se dirixía ao entroido e falaba para a Xulia.
Mais el non ouvía nada con ese disfrace, así que a nena, de verdade, acompañouno á Praza Maior para que puidese ver a hora en persoa.
Entón, mentres Xulia camiñaba tranquilamente pola beirarrúa, houbo unha explosión de gas subterráneo.
Todo o solo voou e formouse un bo buraco.
Inmediatamente chegou a policía para pór orde.
Finalmente, podíase ver a Xulia na parada do autobús.
Despois de moito tempo, chegou o autobús, que levaba escrito nun lateral: compañía de autobuses 'O Avión Azul’.
As queixas dos pasaxeiros tamén se ouvían polo atraso.
A nai e a profesora ficaban sen palabras.
Non sabían o que dicir.
Xulia non estaba a mentir.
Só explicaba as cousas ao seu xeito.
O que quixeches dicir con cando se fixo repentinamente de noite? ─preguntou a profesora.
─ Que houbo un eclipse do sol.
E o impo?
Un terremoto, eu diría.
Entendo ─dixo a profesora.
E o crocodilo?
O crocodilo era realmente un crocodilo que quería danzar.
Nin a nai nin a profe sabían o que pensar, mais deixárono correr.
A partir dese día, ninguén xa se anoxou coa Xulia por mor dos seus atrasos, porque sabían que sempre dicía a verdade, aínda que a dixese ao seu xeito.
En calquera caso, non se preocupou demasiado por chegar tarde, porque ir sempre rápido é moi estresante.
© Frantz Ferentz, 2018