quinta-feira, fevereiro 11, 2016

O MISTÉRIO DOS VÓMITOS ESPONTÂNEOS [+10 anos]



Tudo começou com uma espécie de vómitos que aparecérom esparegidos pola casa. No início eram vómitos isolados, duma cor amarela. Porém, a cousa foi que aos poucos os vómitos se multiplicárom por toda a habitaçom, particularmente nas zonas perto dos armários.
    O Fendro quiso saber donde procediam aqueles vómitos.
    — Provavelmente é cousa dos ratos —opinou o seu irmão maior, o Manel, que entendia muito de motos e videojogos, mas nom entendia nada de ratos e menos ainda de vómitos de rato.
    Parecia que à única pessoa na casa que importava a origem daqueles pequenos vómitos era a ele. Ademais, só éle os limpava, mas tinha um interesse científico que o levou a, ademais, armazená-los e até classificá-los. Também examinou alguns deles ao microscópio, o qual nom deixa de ser algo excecional, porque um rapaz de nove anos nom tem por costume fazer essas cousas.
   Dedicou horas e horas à investigaçom acerca dos vómitos. Ademais de na internet, procurou informações em bibliotecas e até escreveu para cientístas, fazendo-se passar por um afeiçoado à ornitologia de trinta e tal anos, porque outramente nom o tomariam a sério.
    Porém, nada dava resultados. Nem os científicos mais sisudos do país sabiam que criatura podia vomitar assim. E quando se tratava de fazer estudos de ADN, resultava uma espécie desconhecida, como se houvesse erros na análise das provas de ADN, mas de facto nom havia erro nengum.
    Depois de muito pensar, o Fendro chegou à conclusom de que a criatura que ia vomitando pola casa provavelmente era invisível ou, polo menos, era capaz de se camuflar melhor do que um camaleom. Era impossível que os vómitos surgissem sós, como os fungos. Por isso, instalou câmaras de raios infravemelhos, pequenas, sofisticadas, bem escondidas por toda a casa. 
    E tevo prémio. Aos poucos, as câmaras divisárom como uma estranha criatura do tamanho dum punho corria pola casa. Nom se tratava dum rato, pois corria sobre duas patas e parecia inteligente. Depois de rever todas as gravações, compreendeu que a criatura ia todos os dias à gaveta dos peúgos, remexia ali e saía dela a mascar. Depois, caminhava pola casa como se estivesse bêbedo, até que num certo momento vomitava. Quando isso acontecia, deixava de caminhar como se estivesse bebido e metia-se debaixo do móvel da roupa, mas por ali já nom havia câmaras e nem havia maneira de fazer o seguimento.
    O Fendro foi perguntar durante o jantar:
    — Escutai, vós nom notais ultimamente que faltam peúgos, um de cada parelha?
    — Faltam —dixo o pai
    — Certo, ainda que nom é que sempre faltam, mais bem é que há algum peúgo que está mordido, como se fosse cousa dos ratos... —dixo a mãe.
    — Os ratos nom comem peúgos —dixo o Manel, tencionando parecer que entendia de ratos.
   Mas aquelas explicações bastárom ao Fedro. Ele já compreendera o que acontecia com aquela estranha criatura. Mas nom ia comentar nada com a família, ia agir pola sua conta.
    No dia seguinte, o Fendro preparou uma armadilha na sua gaveta dos peúgos. Meteu umas lambotadas numa gaiola de grilos e deixou-na ali, à espera de a criatura cair na armadilha. Sabia que qualquer monstro, por mui feroz e selvagem que fosse, não poderia evitar ir catar uma lambotada. E acertou. Na manhã seguinte, embora nom se visse a olho nu, na gaiola havia um monstruinho preso.
    O Fendro recolheu a gaiola, colocou-na à altura dos seus olhos no alto do móvel e falou para a estranha criatura, com a esperança de ser entendido:
    — Olha, eu já sei qual o teu problema. Tu nom és um monstro dos peúgos. Ouviche?
    E para a sua surpresa, da gaiola saiu uma voz que respondeu:
    — E logo, como é que tu sabes isso, se nem me podes ver?
   O Fendro estava muito emocionado, mas ele queria comportar-se como um cientista. Por isso explicou:
    — Verás, criatura, tu nom és um monstro dos peúgos. Se nom me engano, és um monstro das tubarias, mas estás errado com seres um monstro dos peúgos. O que a ti che acontece com os peúgos é que che caem mal, por isso os vomitas!
    Aí houvo silêncio. A criatura que se encontrava dentro da gaiola pareceu refletir sobre aquelas palavras do miúdo.
    — Talvez tenhas razom —dixo ao fim o monstro invisível—. Sempre suspeitei que eu era um filho adotado, que os meus pais nom eram os meus verdadeiros pais...
    — O que che fai pensar isso?
    — Bom, que eu sou três vezes mais grande de tamanho que os meus pais e os meus irmãos, nom che parece motivo suficiente?
    — Sim tens razom.
    — E tu porque crês que eu sou um monstro das tubarias?
    Aí o Fendro tevo que quitar do peto umas folhas que imprimira. Tratava-se de imagens que encontrara na rede, onde se mostrava como eram os distintos tipos de monstros domésticos, segundo o professor Agüicola, um génio dos estudos de fenómenos inexplicáveis no lar que era considerado louco pola comunidade científica, mas que era levado a sério por muita gente, como o próprio Fedro.
    — Segundo esta imagem, tu és um monstro das tubarias.
    — E como podes saber como eu sou se nom me tens visto?
    Aí o Fedro quitou do peto algumas das fotos que conseguira com a sua câmara de infravermelhos. O ser das fotos e o ser das imagens do professor Agüicola correspondiam, sem dúvida, ao mesmo tipo de monstro: o monstro das tubarias.
    O monstrinho ficou mui surpreendido, polo menos isso parecia polos suspiros que largava. Quando acougou, tornou-se visível.
    — Está bem, e agora que será de mim? —perguntou o monstruo.
    — Nom tens nada de que te preocupar —dixo o Fendro.
    O rapaz colheu a gaiola e foi com ela ao banho. Depois abriu a porta da gaiola e deixou cair a criatura pola sanita. A seguir, deu descarga e o monstro perdeu-se de vista no remoinho (mas nom penseis mal, a água estava limpa).
    A partir daquele momento, parárom os vómitos e os peúgos mordidos. Mas começárom os sons estranhos por todo o lar. As tubarias soavam a qualquer hora como se fossem as tripas dum monstro gigante, mas só o Fendro sabia o motivo disso. Tinha certeza que o monstro ficara na casa. Sabia-o polos ruídos das tubarias... e também porque, às vezes, quando deixava lambotadas encima da mesa do computador, estas desapareciam misteriosamente.

Frantz Ferentz, 2016

domingo, novembro 29, 2015

O VERDADEIRO SENHOR DAS MOSCAS [+14]

    O Manuel tivera que passar muitas horas a olhar para o teito deitado na sua poltrona durante o tempo que estevo desempregado. Mas o facto de olhar para o teito durante meses e meses, mesmo anos e anos, permitiu-lhe aprender todo sobre as moscas.
    Primeiro ficou a saber como se relacionam e a que estímulos respondem. As moscas, ainda que pareçam animais cochos que se alimentam de merda (com perdão), som animais mui limpinhos, que esfregam as patinhas para as limpar antes de comerem.
    Comprovou, ademais, que as moscas de outono, aquelas que nascem na fim do verão e cuja sobrevivência se prolonga durante o outono, têm um comporta-mento especial, se calhar algo mais teimoso que o resto. Comprovou que são mais ousadas, que têm menos percepção do perigo e, por tanto, som as que mais incomodam. 
   Tanto –tantíssimo– tempo a observar moscas deu para muito, com certeza. E até foi o que lhe ajudou a conseguir trabalho. Si, porque o Manuel montou a sua própria empresa de liquidação de moscas de outono. Efetivamente, só trabalharia de outono na eliminação dessas moscas tão chatas que tanto incomodavam as pessoas. 


& & &


    O Manuel recebeu um novo encargo duma família desesperada. Era a fim de novembro e ainda uma mosca morava no seu lar, resistente a qualquer método de eliminação tradicional. Uma mosca que incomodava ela soa como cinco moscas.
    Quando premeu na campainha da casa, veio abrir-lhe uma senhora vestida com um saio, um gorro de lã e botas recobertas de pele de anho. Mentes falava, da sua boca saia bafo, o cal demostrava a friagem que ia naquele malfadado lar, provavelmente de vários graus baixo zero. A senhora, a tremer de frio, pediu-lhe que entrasse.
    O Manuel comprovou como no interior da casa estava à mesma temperatura da rua. As janelas estavam todas abertas. O Manuel não precisou de explicações, bem logo soubo que aquela já era a decisão desesperada daquela família para se desfazer da mosca. Pensaram que, se ia a mesma friagem dentro que fora, a mosca acabaria morrendo congelada, mas nem aquilo estava a resultar, provavelmente os únicos que iam morrer ali eram os moradores do apartamento, de certo de pneumonia.
    – Neste verão –explicou a senhora–, meu filho era um as. Capturava as moscas com as mãos e depois fazia bolinhas com elas. Creio que até alguma nos caiu na sopa, mas como dizem que têm muitas proteínas, não nos pareceu tão grave, mas agora esta soa mosca...
    O Manuel assentiu. Passou para o salão, onde os dous membros restantes da família presentes no lar, um filho e uma filha, mostravam um aspecto lamentável, com mocos congelados a lhes pendurarem do nariz, como estalactites, ou mais propriamente como carâmbãos.  Ambos deles estavam sentados no sofá, a tentarem ver um filme que passavam pola televisão, apeteirados embaixo dum cobertor, mas mesmo assim o cobertor saltava, sem dúvida por causa dos tremores daqueles dous graúdos.
    – Tentamos com todo tipo de produtos químicos, aerossóis, até umas armadilhas para moscas que vendem pola internet... Mas todo foi inútil, a maldita mosca convive connosco desde ha duas semanas e a cada dia que decorre é mais inaturábel. Não sabemos como acabar com ela... O meu homem dixo que até a mosca não desaparecer da casa, ele não regressará e está a viver numa pensão do centro... Ajude-nos, por favor, ajude-nos.
    – Serão cinquenta euros e vinte mais para o pagamento na zona azul, que o concelho aqui cobra bem caro o estacionamento.
    – O que seja preciso, mas faga algo, faga já!!
    Sem mais demora, o Manuel quitou um apito do peto e assobiou, mas nin-guém na casa sentiu nada, porque se tratava de ultrassons. Porém, a mosca bem ouviu aquele som e respondeu à chamada.
    Saiu da esquina onde estava perfeitamente escondida e pousou numa pequena caixinha transparente que o Manuel já sustinha na mão, com algodões. Quando a mosca entrou nela, o Manuel tapou-a.
    – Já está –dixo o Manuel–. São setenta euros, como lhe dixem.
    A senhora recolheu o seu moedeiro e pagou, mas antes perguntou:
    – E não me pode fazer uma rebaixinha? Este inverno, imos estar todos bem doentes por causa da mosca.
    – Está bem, que sejam sessenta...
    – E diga-me, como conseguiu com um simples apito atrair a mosca?
  – São muitos anos de estudos, minha senhora. É um método científico patenteado por mim. Funciona perfeitamente, como vê. Que tenha um bom dia –cumprimentou o Manuel.
    E foi-se diretamente. Mas quando já estava fora, o Manuel observou a mosca. Colheu a sua lupa e comprovou que o inseto conservava intacta a proteção que ele mesmo lhe fornecera com um verniz da sua invenção, que mantinha a calor corporal da mosca e que até filtrava o ar na sua cabeça para não respirar aerossóis; parecia uma mosca astronauta. Depois, abriu a caixinha e dixo à mosca em tom mequeiro:
    – Como está a minha menina preferida, como está ela?
    E a mosca lançou-se a voar ao redor do seu nariz, zumbando com alegria, como se fosse um cão, mas sem mexer no rabo. 

Texto: Frantz Ferentz, 2015
Desenhos: Valadouro, 2015

terça-feira, novembro 17, 2015

UMA TORNEIRA NA CABEÇA [+12]

   O Luigi era um tipo falador, muito falador. Tanto era assim que o que falava eram principalmente cousas que ele inventava. Decerto o seu cérebro bulia e bulia com estórias que lhe acudiam à mente constantemente. Se alguém tivesse tido a ocasião de pôr um microfone dentro do seu cérebro, teria escutado algo assim como uma caldeira em ebulição, soava “blu-blu-blu”.
   Porém, a mulher do Luigi já estava farta de ouvir tanta estória que contava, embora ela nem desse conta que o seu homem o único que fazia era inventar estórias. E claro, já estevo tão farta, que ameaçou o Luigi com ela ir embora, se ele não punha remédio à sua doença, pois ela achava que era uma doença.
   Foram, portanto, ao psiquiatra.
   – Doutor, o Luigi não pode ficar calado... –começou a dizer ela.
   – Não exagere, senhora –dixo o doutor.
   – Sabem uma cousa? –começou a dizer daquela o Luigi–. Houvo uma vez um cão que decidiu inventar uma linguagem gestual só com os movimentos do rabo e para isso falou com...
   – Está a ver? –interrompeu a mulher–. Acaba de começar a contar uma estória.
   O doutor quedou bem pensativo. Porém, bem logo soubo o que acontecia com aquele homem: tinha uma criatividade tão grande que era impossível para ficar calado e deixar qualquer estória dentro, tinha que contá-la. De facto nisso funcionava como qualquer rapazinho que tem a mioleira cheia de cousas e tem que as largar.
   – ... e claro, o cão encontrou então que as palavras compostas envolviam mais movimentos do rabo, o dobro, para sermos exatos. Mas nem só isso, algumas raças de cães tinham um dialeto diferente, polo qual o seu sistema de linguagem gestual com o rabo não dava funcionado... –prosseguia o Luigi alheio à discussão entre a sua dona e o doutor.
   – Minha senhora –dixo o doutor–, deve ter paciência. Deia-me uns dias até que veja como podo ajudar o seu homem. Entrementes, tenha muita paciência com ele...
   – Que tenha paciência, doutor? Como se vê que o senhor não convive com ele, como se vê, que até à noite ele fala e fala em sonhos, porque narra mesmo o que sonha... Diga-me, há algo parecido com quitar-lhe as pilhas para assim evitar que ele continue a falar e falar?
   – Já lhe dixem que preciso uns dias, minha senhora. Torne por aqui em breve e já lhe digo mais alguma cousa.
   Porém, mentes o doutor procurava uma solução, ela decidiu tomar medidas pola sua conta. Assim, uma noite, enquanto o Luigi falava e falava em sonhos, ela pendurou o homem dum pé ao teito e deixou-o assim toda a noite, mas não conseguiu que calasse, simplesmente que ele contasse a sua estória do invés, isto é, começando pola fim e acabando polo princípio, o qual é um bocadinho difícil.
   Cabo de três dias, o Luigi e sua mulher foram convocados polo doutor. Ele dixo-lhes que a única solução para o Luigi poder acougar era que utilizasse uma torneira da criatividade.
   A mulher ficou pampa. 
   – Uma torneira? Por acaso quer fazer um buraco ao meu homem no cérebro para que lhe saiam as estórias por aí?
   O doutor escachou com o riso. Não, não se referia a uma torneira real, como as que se usam nas casas para a água sair, mas a uma torneira metafórica. Por isso explicou:
   – É um conceito psiquiátrico que acabo de adotar eu –explicou ele–. Depois de três dias a pensar no caso do seu homem, cheguei à conclusão que ele tem que procurar uma outra forma de expressar o que tem dentro sem que você padeça as suas estórias uma trás outra, mas é impossível que isso aconteça se ele não tiver outra hipótese para contar tais estórias.
   – Não percebo nada –dixo a mulher.
   – Sabem que durante a Idade Média existiu um dragão que gostava de botar lume nas bolas de lama que fazia para as endurecer e assim depois bater nelas com o pé? Existe a teoria de que os labregos, depois de o dragão cansar de bater nelas, começavam a dar pontapés eles mesmos às bolas e foi assim que nasceu o futebol... –começou a contar o Luigi.
   – Experimentarei o que me der, doutor –dixo a mulher do Luigi–. Eu já não aturo mais este pesadelo. Diga-me em que consiste essa torneira.
   E perante o assombro da mulher, o psiquiatra quitou uma caneta do bolso e dixo:
   – Eis o aparelho. Só tem que dar isto ao seu homem, junto com um caderno e dizer-lhe que se punha a escrever o que inventa. Mais para frente, se quiser, até pode abrir um blogue para contar todas as suas estórias.
   A mulher não dava crédito ao que estava a ver. 
   – A sério acha que escrevendo o Luigi vai parar de contar estórias?
   – Não, não vai parar. Vai cessar de conta-las, passará a escrevê-las, o qual deveria fazer em silêncio. Eis a solução...
   E foi assim como o Luigi, com efeito, deixou de falar a todas as horas e passou a usar a caneta e o caderno, mas a questão foi que não se dedicou a escrever as estórias, mas a desenhá-las. Porém, quando já as tinha ilustrado, começava a explicar a estória que escondiam aquelas imagens...
   Hoje o Luigi mora numa ilha remota do Pacífico Sul, num atolão. Ele mesmo nem sabe como acabou ali. Porém, ao seu redor tem um público entregado, os golfinhos; ele é feliz, porque primeiro desenha as suas estórias na areia e depois conta aos cetáceos todas as estórias que lhe apetece. Disque os golfinhos estão a apreender a falar graças às estórias do Luigi, o qual explicaria por que entre eles se estão a contar tais estórias e por que por todos os mares do mundo os golfinhos se debruçam ao lado dos barcos e contam as estórias do Luigi por todos os mares do planeta...

Texto: Frantz Ferentz, 2015
Desenhos: Valadouro, 2015

segunda-feira, novembro 16, 2015

TRAS OS PASOS DO IETI DOS ANDES [+10 anos]



   Cando os membros da equipa de rescate alcanzaron o avión, alí na planicie no medio dos Andes, a case seis metros de altura, entre metros e metros de neve, levaron una sorpresa. Os pasaxeiros do avión estaban en perfecto estado, sobreviviran todos ao impacto, mais todos eles estaban descalzos.
   As investigacións posteriores revelaron que foran descalzados por unha criatura peluda enorme que acudiu até os restos do avións unhas horas despois do impacto. A criatura, que medía por volta de tres metros, non atacou os pasaxeiros, limitouse a ir descalzando os pasaxeiros un tras outro, sen agredilos. Só gruñía por veces, cando o calzado se resistía a saír, o cal aconteceu apenas nun par de ocasións. Feito o cal, a criatura desapareceu. Aínda que as equipas de rescate seguiran as súas pegadas, perdéronas axiña, cando chegaron a unha  zona de rochas onde xa non ficaban restos delas. E o máis estraño de todo foi que os zapatos roubados estaban todos alí, abandonados, mais non os peúgos.
   Os antropólogos tiñan unha hipótese: fora un ieti que acudira onda os pasaxeiro, mais ninguén deu comprendido cal era o seu interese no calzado e menos aínda nos peúgos. Seica o ieti usaba a la dos peúgos para se construír unha cama? Porén, era a primeira noticia que se tiña no Ecuador da presenza dun ieti, pois como é ben sabido estas criaturas só existen no Tibet, embora existan tamén outros seres parecidos na América do Norte, os chamados pés-grandes.
   A noticia foi moi comentada nas noticias. Porén, só alguén sabía que non se trataba dun ieti. Ela era dona Carmela, unha tenra avoa que se dedicara a criar criaturas estrañas durante toda a súa vida na súa casa pequena dos arrabaldes de Quito. En vez de gatos, ela sempre acollera monstriños domésticos. Sabía ben que aquela criatura peluda que moraba nas planicies a 6000 metros entre a neve era Gualdo, o seu monstro dos peúgos, aquel que lle escapara había décadas para as montañas, e que, aparentemente, se convertera nun monstro xigante... dos peúgos. Polos vistos, o frío tiña un efecto dilatador nos monstros dos peúgos, iso e fartarse a comer pelaxe de llamas alpinas, que son a materia prima dos mellores peúgos. Con todo, debía sentirse tan só, aquel pequerrecho... 

Texto: Frantz Ferentz, 2015
Ilustración: Valadouro, 2015

quinta-feira, julho 30, 2015

O MISTÉRIO DO TELEMÓVEL DA CARMINHA [+12 anos]

    A oferta soava muito bem: telemóvel nem só inteligente, mas também ultrassensível. A tecnologia estava a avançar a um ritmo que ia conseguir que os telemóveis tomassem as suas próprias decisões.
    Talvez fosse por isso que a Carminha decidiu finalmente mudar o seu velho aparelho. Era escandalosamente velho, tinha três anos e com umha antiguidade assim nom conseguiria falar bem logo com ninguém. Além, disso os filhos da Carminha insistiam-lhe para finalmente mudar aquele aparelho e até a acompanhárom à loja de telemóveis para comprar aquele modelo que tanto anunciavam e que se podia pagar em cómodos prazos durante vinte anos.
    O vendedor, um tipo expelido e de compridos bigodes, sabia bem fazer o seu trabalho. Tinha umha verba ligeira que lhe permitia falar sem tema durante três horas, o qual lhe era mui útil para vender telemóveis de última geraçom.
    — A melhor escolha, minha senhora —começou a explicar, enquanto os seus bigodes se moviam em cada extremo para um lado, como se tivessem vida independente—. Este telemóvel tem funçom auto-programável, retro-reciclável, com detector de idiotas, cronómetro inverso, bate-papo com sintonizador de voz... bom, tem de tudo, mas o melhor é a sua extrema sensibilidade, que fai, por exemplo, que quando a senhora chame por ele, mesmo estando desligado, se ligue automaticamente e responda o que a senhora quiser. A frase que vem por defeito é: “Estou aqui, carinho...”, com voz de homem o de mulher segundo corresponda.
    — Mamã, este telemóvel é perfeito para ti.
    — Pode ser, mas a mim já me chega com que serva para falar. Pode-se falar por ele?
    — Á, senhora, fala-se até do revês com uma aplicaçom que leva aqui que...
    — Deixe estar, enfim, vou levá-lo. 
    A Carminha levou o telemóvel para a casa. Assim que estevo, abriu a caixa que o continha, colocou a bateria e asinha o telemóvel começou a funcionar. Prendeu-se umha pantalha de boas-vindas e umha voz delicada, insinuante, dixo:
    – Olá, eu sou o seu novo telemóvel Pinkio 415. Estou feliz de poder servir-lhe. Prema na pantalha para começar a minha configuraçom.
    A Carminha premeu, porque ela era mui formal. E entom do aparelho saiu um som bem estranho, um som que soava como “gligligli” sem qualquer resultado. A seguir, a mesma voz sensual repetiu a ordem:
    — Prema na pantalha para começar a minha configuraçom.
    A Carminha tocou e novamente soou o “gligligli”.
    Estevo assim tempo demais, entre tocar a pantalha e o “gligligli” que soava todo o tempo sem poder avançar. Desesperada, a Carminha recolheu o telemóvel e levou-no à loja, onde o simpático vendedor dos bigodes com pontas independentes a acolheu com um sorriso que desafiava todas as leis da natureza.
    — Diga, minha senhora, algum problema com o seu novo telemóvel?
    — Que nom o dou configurado. Poderia provar vostê?
    — Claro.
    O vendedor do bigode premeu na pantalha e soou um clink que asinha ativou tudo. Depois de atravessar várias pantalhas, pediu à Carminha:
    — Senhora, continue vostê.
    A Carminha premeu e voltou a ouvir-se o “gligligli” de antes. Aí o sorriso do vendedor desapareceu de tudo. Ele mesmo premeu e concluiu a configuraçom. Depois voltou a pedir à Carminha que premesse ela a pantalha.
    Novamente soou aquele “gligligli” e o telemóvel nom reagia. Porém, se tocava o vendedor, tudo corria perfeitamente, mas quando tocava a Carminha, apenas soava aquele ruído e o telemóvel nom funcionava, até se escurecia durante umhas décimas de segundo.
    — Nom entendo nada —confessou o vendedor que, pola primeira vez nem só em toda a sua carreira, mas mesmo em toda a sua vida, quedava sem palavras.
    Porém, na mente da Carminha fezo-se a luz.
    — Nom dixo que este telemóvel é ultrassensível como nengum outro até agora?
    — Dixem.
    — Entom, já entendo o que lhe acontece. Vostê preme com força nele, mas eu fago-o suave, por isso provoco nele uma sensaçom que vostê nom provoca.
    — A qual, minha senhora?
    — Côxegas.

Texto: Frantz Ferentz, 2015
Imagem: Valadouro, 2015

NICO O NICÓPTERO [+ 8 anos]

    A Sara olhava para o seu cão Nico. Era tão pequeninho que até quase parecia que poderia flutuar. Lembrou-se que por algures havia um invento do avô, era um gorro que parecia que serviria para que pequenos animais pudessem voar. Por isso, foi ao arcom onde se guardavam os inventos do avô, que fora um inventor, mas nunca o levárom muito a sério.
    Entre as cousas do avô havia um pequeno gorro com umha hélice em cima. A Sara pensou que decerto aquilo seria um gorro voador para cães miúdos como o seu. Ia ajustado com umha correínha por baixo do queixo. Nom o pensou duas vezes. A Sara colocou o gorrinho ao Nico. A seguir premeu num botom que ficava num lateral e a hélice pôxo-se a virar; depois, o cão começou a voar polo quarto.
    —  Estás a voar, Nico, estás a voar! —berrou-lhe a Sara.
    Com efeito, o Nico voava pola sala e ladrava para mostrar a sua felicidade.
    — És um nicóptero, isto é, um Nico voador! —dixo-lhe ela entusiasmada.
   O cão voava pola sala enquanto as hélices faziam um rugido como de ventilador. De vez em quando, o Nico batia contra umha parede, porque aquele invento do gorro com hélices nom tinha leme para poder virar. E claro, ao cabo, aquilo acabou sendo um desastre, porque o Nico estava cada vez mais nervoso e ladrava. Alguns quadros caírom para o chão, também um vaso da trisavoa... Um desastre, tanto que acudiu a avoa para ver que era o que causava aquele estrondo no quarto.
    — Sara, o que é isto? —gritou a avoa quando viu o nicóptero ladrando e passando por cima das suas cabeças sem controle.
    — Colhim este invento do baú do avô —explicou a Sara—. Pensei que fosse para os cães voar, nom é para isso?
    — Mas que dis? Isso é um ventilador cerebral. O teu avô inventou-no para as pessoas, a fim que lhes refrescasse o cérebro e assim pudessem pensar friamente...
    E justo nesse momento, o nicóptero enfiou pola janela aberta e saiu para o pátio...

Texto: Frantz Ferentz, 2015
Imagem: Valadouro, 2015

sábado, julho 18, 2015

ARIADNA, A DRAGOA COQUETA [+8 anos]

   Sempre, em todas as estórias que tratam de dragões, estes animais som descritos como feras sanguinárias que cospem lume e assam os cavaleiros que os atacam como se fossem polos à grelha. Tampouco é que os cavaleiros ficassem em bom lugar, pois costumavam atacar os dragões com a mesma fereza, providos dumha lança e um escudo, sem lhes importar muito a sorte que corria o cavalo que cavalgavam, porque nom atacavam a pé. Quando um cavaleiro conseguia evitar as laparadas do dragom e espetava a lança no peito da besta, esta podia cair morta, mas mesmo assim existia o risco de o cavaleiro morrer na mesma se nom conseguia afastar-se rapidamente do corpo do dragom a cair, em cujo caso morriam os dous e ninguém contava a façanha, nem o dragom aos seus netos nem o cavaleiro aos seus.
   Em definitiva, tratava-se de mortes estúpidas, mas houvo umha época antigamente em que gostavam destas cousas. Nom sei se o facto de nom se verem mais dragões responde a que acabárom com todos eles, ou se, por acaso, fartárom de ser perseguidos e dalgumha maneira conseguírom passar desapercebidos para os humanos. Há quem acredita muito nessa segunda hipótese, porque desaparecêrom dum dia para o seguinte sem deixarem pegada, mas essa é outra estória de que nom imos tratar aqui.
   Há muitas lendas que falam das relações entre humanos e dragões, mas existe umha pouco conhecida que é a que che vou contar aqui. Aconteceu nalgum lugar da antiga Inglaterra, nalgum dos seus bosques...

   É que a Inglaterra é tão antiga que nem cinco gerações de tartarugas dessas que alcançam os trezentos anos som mais velhas que ela?

   A Inglaterra é ainda mais antiga que todo isso e esta estória aconteceu há muito mais tempo desse que dis de cinco gerações de tartarugas... Pensa que há polo menos mil anos que nom se vê um dragom na face da terra, portanto, isto aconteceu muito antes.
  Todo começou numha família de dragões normais. O pai e a mãe –nisso nom havia distinções– passavam o seu tempo entre procurarem comida e defenderem-se dos cavaleiros que, de vez em quando, apareciam pola calvela do bosque onde viviam para lhes inserir umha lança. Na família, a Ariadna era filha única e medrou num contorno de tensom, pois sempre um membro da família tinha que velar enquanto o resto dormia, para evitarem ataques noturnos dos cavaleiros andantes, ou mais bem cavalgantes.
   Também à jovem Ariadna chegou o tempo de ela vigiar de noite. No início tinha medo, porque nom sabia se seria capaz de lançar lapas contra um cavaleiro que avançasse contra ela ao galope. Por isso, nas primeiras ocasiões, assim que sentia barulho perto dela, lançava laparadas contra o que se movia. Como conseqüência daqueles medos, alguns coelhos e esquios acabárom abrasados.
   Umha em cada três noites, a Ariadna passava-a a noite desperta na procura de qualquer movimento suspeitoso. Pouco a pouco foi-se avezando aos sons da noite, soubo o que era umha coruja, que soava bem distinto dum sapo, ademais de que a primeira voa e o segundo nom. Graças aos novos conhecimentos que ia adquirindo sobre o bosque, foi aos poucos perdendo o medo do que se lhe achegava. Já nom largava laparadas contra cada movimento que se produzia perto dela. 
   Era cada vez mais valente...

   Eu também che sou valente, muito. Nom che tenho medo do que queira que seja que remexe debaixo da minha cama todas as noites.

   Talvez seja umha rata.

   Umha rata? Ai hou, isso sim que me põe medo!

   É brincadeira. Talvez a Ariadna, embora fosse tão valente, tivesse medo das ratas, nom sei.
   Bom, e sendo assim, a Ariadna foi-se afastando cada vez mais da calvela, penetrando no bosque, porque estava curiosa de ver o que havia para além das fronteiras do seu pequeno mundo. Como ademais era umha dragoa miúda, quero dizer, que era umha menina dragoa, nom tevo problemas para se esconder entre os matos.
   Foi assim como descobriu que nom longe de onde moravam corria um regueiro em que o luar se refletia. Ao pé dele, umha mocinha ia todas as noites até a sua beira e sempre fazia o mesmo. Sentava sobre os calcanhares e passava o dedo polas rochas de arredor. Nelas havia umha espécie de tintes naturais com que a rapariga se cobria o rostro e os lábios. Depois contemplava-se nas águas serenas do regueiro e sorria. Encontrava-se lindíssima assim. Depois, limpava a cara e ia embora, cantarejando polo caminho.
   A Ariadna aginha compreendeu que o que fazia a rapariga era algo que lhe fazia sentir-se bem, entendeu que aumentava a sua beleza, portanto decidiu provar ela também. É que nom tinha ela todo o direito a se sentir bonita?
   Foi assim que umha noite, depois de a menina ter ido embora, a Ariadna se achegou também do regato e contemplou o seu rostro na água. Ela nem sabia se era bonita ou nom, porque de facto só tinha visto dous dragões em toda a sua vida: o pai e a mãe, e bom agora ela também refletida no regato. Porém, como era umha dragonzinha curiosa, imitou os movimentos da miúda que descobrira ao pé do regueiro e pôxo-se enfeites polo rostro com aqueles pós que havia nas rochas ajudando-se das suas poutas. Decerto era o mais parecido a se maquilhar. 
  E assim, apareceu umha manhã polo calvela onde moravam os pais. Quando estes a vírom, pensárom que a dragonzinha apanhara umha doença grave, algo talvez contagioso, por isso botárom-na para um recanto, longe deles.
   – Comeche algo em mau estado? –perguntou o pai?
   – Bebeche água com mofo? –perguntou a mãe.
   A Ariadna tevo que lhes explicar aos berros que nom estava doente, que só imitara umha menina humana que se enfeitava na ourela do regueiro e que ela queria ficar bonita como ela.
   – Toleache? –exclamou a mãe–. Nós somos dragões, nom humanos, nom temos que ficar guapos, entendeche? A nossa vida passa entre caçar, dormir e defender-nos dos humanos.
   Aí a Ariadna pensou que já era triste passar toda a vida a fazer só essas três cousas. Decerto que se podiam fazer outras mais. E eles que eram tão grandes nem o podiam imaginar?
   Cada vez que a Ariadna tinha o turno de guarda, acudia ao regueiro, maquilhava-se e depois contemplava o resultado no regueiro se é que havia luar. E foi numha destas quando apareceu por ali a miúda de que apreendera a se maquilhar a dragoa. Chegara mais tarde do habitual.

   E a miúda assustou-se, certo? Pôxo-se a berrar como umha desesperada pedindo socorro e aparecêrom labregos de toda a parte com fouces, gadanhas e até forcas, nom sim?

   Nom, nom che foi assim. A miúda, que se chamava Sabry, gostou de ver a dragoa maquilhada e botou a rir.

   E agora hás-me dizer que a dragoa nom se ofendeu e lhe lançou umhas lapas que deixárom a rapariga assada.

   Nom, nom se ofendeu. Ao contrário, gostou do que via e ambas delas tornárom-se boas amigas. Pensa que nem a menina nem a dragoa entendiam aquela estranha mania das suas respetivas espécies de se perseguirem e se aniquilarem. Elas vírom-se como iguais, como companheiras de jogos.
Assim, a partir daquela noite, cada vez que ambas se encontravam na beira do regato, maquilhavam-se. Tornárom-se boas amigas, tanto assim que primeiro a Sabry maquilhava a Ariadna e depois a Ariadna maquilhava a Sabry. O certo é que se entendiam muito bem e passavam-no à grande juntas. Tiravam-se pola lama da beira e depois banhavam-se no arroio.
   A Ariadna nom queria que seus pais se inteirassem das suas aventuras com a Sabry. Por isso, só se viam cada três dias, que é quando lhe tocava fazer guarda a ela.
   Decorrêrom vários meses assim, em boa companha. A rapariga chegou a apresentar o seu irmão Bob à dragoa:
   – Este é Bob –dixo a Sabry–. Meus pais querem que ele chegue a ser um cavaleiro.
   Mas a cara do Bob nom era precisamente a dum futuro cavaleiro. O de atacar com escudo e lança dragões nom parecia ser, precisamente, umha cousa que lhe fascinasse.
   Ariadna estendeu a sua pouta cheia de pós de maquilhagem e ofereceu ao Bob.
   – Nom, ele é rapaz. Os rapazes nom se maquilham –explicou a Sabry.
   A Ariadna nom deu entendido por que ela sim se podia maquilhar para ficar mais currinha e ele nom, mas eram cousas de humanos e nom ia entrar nisso.
Quanto desfrutárom ambas delas durante várias semanas, também as vezes com o Bob, que resultou ser um excelente construtor de cabanas de madeira; com um machado podia construir quase qualquer cousa. Mas um bom dia, a Sabry e o Bob desaparecêrom, deixárom de acudir à beira do regato. Durante semanas, a Ariadna ficou à sua espera, maquilhando-se soa, mas a rapariga nom apareceu mais nunca. Foi mui triste para a jovem dragoa, porque tinha perdido a única amiga da sua infância.

   E nom conheceu outros dragões com que fazer amizade?

   Conheceu, com o passo do tempo, mas nunca esqueceu aquela sua amiga. Contudo, a Ariadna negou-se a deixar de se maquilhar. Gostava daquilo. Por isso, quando foi encontrando-se com outros dragões, estes riam dela, nom a levavam a sério. Nengum dragom entendia por que a Ariadna queria estar coqueta. Mesmo com o tempo apreendera a se maquilhar muito bem, sabia pôr em destaque as suas pestanas, ou dava um brilho especial aos seus beiços. A ela interessava-lhe mais aquilo do que acabar com os cavaleiros andantes mata-dragões.
   Sua mãe ainda lhe dizia:
   – Essa tua obsessom por te maquilhares em vez de assares cavaleiros cavalgantes vai ser a tua perdiçom, desperta de vez!
   Aquelas palavras da mãe chegárom a se tornar umha realidade algum tempo depois, quando já a Ariadna, como dragoa adulta, foi viver para umha parte do bosque entre rochas. Ela procurou um lugar onde houvesse aqueles pós das rochas que lhe permitiam maquilhar-se e, ao mesmo tempo, um bom regueiro onde pudesse olhar-se. Encontrou-no ao cabo e ali ficou a viver.
   Mas a sua calma nom durou muito tempo, porque pouco tempo depois de se ter instalado, acertou a passar por ali um cavaleiro andante sobre o lombo dum velho cavalo branco que era o lar de milhares de moscas. Até o escudo que levava estava cheio de golpes e todo sujo, tanto que nem se sabia qual era a cor original. 
   A Ariadna estava daquela a se maquilhar, mesmo a provar-se umha espécie de peruca feita à base de balor de cor verde que lhe acaía muito bem com a cor dos seus olhos. Para isso, enxugara o balor com alento de dragom e depois criou umha espécie de tapete que ajustou à sua cabeça de dragoa. Que guapa se via assim! Foi nessa altura quando ouviu umha voz às suas costas que soava metálica porque saía de debaixo dum casco oxidado e que lhe berrava:
   – Prepara-te a morrer, dragom do inferno.
   E a seguir, umha peça da armadura caiu para o chão, fazendo bastante estrondo.
   A Ariadna virou-se e viu um cavaleiro pessimamente armado, a quem a metade da velha armadura lhe estava a cair para o chão, enquanto ele tentava segurá-la dalgumha maneira, mas naqueles tempos ainda nom existia a fita isolante.
   A dragoa quiso lançar umha laparada de lume contra aquele infeliz, mas nom gostava muito da ideia. Por outro lado, tratava-se da sua vida ou da daquele humano.
   Portanto, encheu os pulmões com ar e dispôxo-se a aventar lume...
   Espera!

   Exato, isso foi o que dixo o cavaleiro.

   Nom, eu digo que esperes, que hei ir ao banho (...)  Já está, podes continuar.

   – Espera! –gritou o cavaleiro.

   Isso já o contache.

   Tem paciência. 
   Depois desse berro, a dragoa detevo o seu ataque, mas entom veio-lhe o impo, porque deixara todo o lume dentro.
   E aí o cavaleiro quitou o casco daquela armadura que já praticamente era como umha lata de conservas.
   – Sou eu, Bob –dixo–. Quando te virache, reconhecim-te. És o único dragom que se maquilha.
   A Ariadna largou um grunhido, que queria dizer: “dragoa, que sou umha dragoa”. E depois largou outro, que o Bob entendeu perfeitamente.
   – Sabry? Que onde está a Sabry?
   Ai o Bob deixou-se cair no chão e já os restos da armadura marchárom por cadanseu lado.
   – Há anos que ando na tua busca –explicou o Bob–. Os meus pais obrigárom-me a entrar na escola de cavaleiros, ainda que eu nom queria. Porém, a Sabry pediu-me que te encontrasse, por isso aceitei ser cavaleiro, para te encontrar, porque és a melhor amiga que ela tevo nunca...
   Enfim, foi mui emocionante, até me vem vontade de chorar ao contá-lo...

   O que acontecera com a Sabry? Morrera ou quê? Casara com alguém e fora viver mui longe? Conta, ho!

   Deixa-me um momento, que nom podo prosseguir. Entrou-me algo no olho e saltam-me as bágoas. Vou ao banho um momentinho.

   Anda, vai e acaba depois esta estória, que nom podo esperar a saber como remata, porque já me dirás se é normal que umha dragoa se maquilhe. Onde tal se viu? Nom sei como podes ter tanta imaginaçom para contares umha estória tão incrível como esta... Eh, mas espera, espera, que já estou a entender. Tu dis que o Bob sabia fazer qualquer cousa com a madeira, como tu, que és o artesão com mais sona de toda a vila, tanto que até fás exposições. E depois está a dragoa, que sabia maquilhar-se muito bem, gostava mesmo do verde: a avoa tem os olhos verdes e até põe perucas verdes, é umha grande maquilhadora que ainda a chamam da televisom e dos concursos para maquilhar... Claro, agora entendo tudo, o que me contache é umha fantasia de como conheceche a avoa, que por riba é muda! É como a dragoa, que tampouco nom fala!
   Porém, só me resta saber umha cousa: quem é na realidade a tua irmã Sabry?

   Já estou aqui. Pois bem, se és tão inteligente, adivinha tu quem é a minha irmã Sabry nesta estória. E agora, a dormir. Boa noite.

   Avô, nom me deixes assim... quero que remates a estória, quero que a remates!

   Já é mui tarde. Pensa no nome de quem tu dizes que é minha irmã. Boa noite.

   Que pense no nome? Sabry? Sabry, Sabry, Sabry... soa a... brisa!

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, julho 09, 2015

COMO FALAR INGLÊS COMENDO AS PALAVRAS

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À Lu dixera-lhe a mestra que nom podia continuar assim com o inglês, que ela nom o falaria nunca bem se nom apreendia a comer as palavras.

– Comer as palavras? –perguntou a Lu–. E isso como se fai?

– Ouviche algumha vez como falam os afro-americanos? Eles sim que falam bem. Comem bem as palavras e o seu inglês é perfeito –dixo a mestra, que era umha tipa estranha demais–. Mentres nom comas as palavras, nom falarás bem inglês e, portanto, nom aprovarás.

A Lu quedou bem preocupada com aquelas palavras da sua mestra. E como ia fazer ela para comer as palavras do inglês?

Aí topou-se com a avoa polo corredor da casa, quem ainda que nom tinha estudos, era umha mulher mui sábia. A Lu contava-lhe todos os seus problemas.

– Conque tens que comer as palavras –refletiu em voz alta a avoa depois de ouvir a narrativa da neta–. Escuita, quando cativa, a minha mãe, a tua bisavoa, tinha um remédio infalível para comer qualquer cousa.

– E qual é esse remédio?

– Mel de uz.

Já dito, já feito. Antes de começar as aulas de inglês, a Lu levava um frasquinho de mel de uz que lhe fornecia sua avoa. Metia umha colherada na boca e depois começava a falar inglês.

– Lu –dixo-lhe ao cabo a mestra–, nom sei como o fás, mas cada vez falas inglês melhor, até comes as palavras como um afro-americano. Como o fizeche?

Mas a Lu nom contou o seu segredo. Porém, quando tevo que apreender alemão, algum tempo depois, já nom lhe serviu o mel de uz, porque o professor daquela lhe dixo que, para falar bem alemão, tinha que apreender a falar com impo. Por isso, aginha a Lu berrou:

– Avoaaaaaa, como se provoca o impo?

– Que como se quita?

– Nom, que como se provoca...

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, julho 06, 2015

O ATAQUE DO DONUTOSSAURO [+10 anos]


  Cada vez que o Fernão comia um dónut, tinha medo de ouvir umha gargalhada potente ao seu carom e a seguir uns berros que o fizessem sentir envergonhado de comer, precisamente, dónuts.
  A desgraça do Fernão era que adorava dónuts e precisamente nisso vários dos seus companheiros da turma atopárom um motivo para atacá-lo tudo quanto lhes petava. Tratava-se de três rapazes terríveis, o Pim, o Dam e o Gos. Com nomes tão cómicos nom era estranho que fosem conhecidos como os pindangos, unindo as sílabas dos seus nomes.
  Os pindangos nom deixavam escapar qualquer ocasiom para atacarem e envergonharem o Fernão. Durante os recreios espreitavam-no, nom importava onde se escondesse, porque o davam encontrado, e assim que travava o dónut, começavam os risos e os comentários:
  – O Fernão come dónuts, socorro, é um canibal, que come os da sua espécie!
  – Fernão, Fernão, Fernão, nom me comas, que podo ser o teu irmão...
  – Ouh, Fernão, se nom me comes, concedo-che três desejos...
  O coitado do Fernão nom podia comer um dónut em paz quando estava na escola. Tampouco tinha a coragem de contar a ninguém o que lhe faziam os pindangos, mas nem era preciso, porque toda a turma sabia o que acontecia e até lhes parecía tão divertido. 
  Na casa o Fernão tampouco nom contava nada. De facto até a mãe lhe dizia que nom comesse tanto dónut que estava gordecho a mais.
  Provavelmente as cousas teriam continuado na mesma, mas houvo um acontecimento que fezo com que mudasse tudo. Foi simplesmente que os pindangos, à vista de que o que faziam contra o Fernão quedava impune, decidírom dar um passo adiante para se divertirem ainda mais.
  Assim, durante um recreio, aproveitando que os mestres tentavam separar uns rapazes numha peleja, os pindangos rodeárom o Fernão. Em vez de rirem e arremedarem um dónut pronto a ser devorado, achegárom-se do rapaz, colhêrom-lhe os três dónuts que levava consigo e com cada um deles fizêrom umha cousa diferente.
  O primeiro esfaragulhárom-no nas mãos e obrigárom o Fernão a comê-lo; o segundo foi misturado com molho picante que levava um dos pindangos e também obrigárom o Fernão a comê-lo; e o terceiro saiu voando até o telhado da escola e iam obrigar o Fernão a ir recuperá-lo, mas por sorte soou a campaínha da fim do recreio.
  Os três pindangos ficárom bem satisfeitos, fora um sucesso total e sentiam-se orgulhosos da sua “façanha”. Com certeza queriam repeti-la o antes possível, bastava que o Fernão volvesse à escola com mais dónuts, tão simples como isso.
  Mas o Fernão nom reagiu como acostumam reagir tantos rapazes na sua situaçom. Nom foi contar nada aos professores, nom. Tampouco nom comentou nada na casa. Para que, nom o entenderiam.
  Aparentemente nom fezo nada.
  Aparentemente.
  Porém, aquela mesma noite, o Pim, o Dam e o Gos tivêrom o mesmo sonho. Tratava-se dum sonho horrível em que alguém petava na porta de cadansua casa. Os rapazes abriam e entom entrava umha criatura que assustava muito. Tratava-se dumha espécie de tiranossauro, mas o certo é que nom era um dinossauro normal, aquele... aquele... aquele estava feito de dónuts! Aquele dinodónut, ou o que for, perseguia-os por toda a casa, destruíndo os móveis ao seu passo, rugindo e abrindo umha bocoa cheia de dentes afiados, que talvez fossem também de dónut, mas nom iam parar para ficar a saber.
  Contudo, o pesadelo proseguiu na noite seguinte. Aconteceu que os três pindangos estavam no meio do campo e apareceu novamente aquele monstro de qualquer parte e correu trás eles. Os pindangos nom faziam outro que berrarem de terror, sentindo o alento de dónut do monstro na caluga. Passárom toda a noite a correrem diante do monstro, sem conseguirem perdê-lo de vista.
  E ainda umha terceira noite, volvêrom os pesadelos. Na altura tudo decorría num aviom. Os três rapazes tinham que sair da cabina e correr polas asas e polo teito do aviom, com o risco de caírem, sempre com o dinossauro de dónuts a correr trás eles.
  Claro, tanto terror já nom os deixara descansar em três noites. Tinham umhas olheiras que lhes caíam até os pés. Acabárom confessando aos pais que riram do Fernão e que aquilo tinha que ser a vingança daquele gordecho do Fernão por eles encontrarem divertido que ele comesse dónuts sem parar. Certamente nom contárom mais detalhes...
  Os pais dos pindangos, todos indignados, fôrom ver o diretor da escola. Iam pedir que aquele Fernão respondesse por fazer magia negra sobre os seus benqueridos filhos, aquelas ánimas boas que foram objeto de vingança da parte daquele rapaz insensível devorador compulsivo de dónuts.
  O diretor, um home prudente, primeiro quiso falar com o Fernão e escuitar a sua versom. Para isso, convocou-no ao seu escritório e escuitou atentamente o que o rapaz lle contava:
  – Passam todo o curso a rir de mim porque como dónuts, isso é certo –reconheceu o Fernão; depois, contou o último episódio.
  – E por que nom o contache nada a ninguém? Isso é assédio e é umha falta grave.
  Aí o Fernão baixou a cabeça, sem dizer umha palavra. O diretor entendeu que o rapaz nom queria ser assinalado como lareta.
  No dia seguinte, o diretor mandou chamar os pais dos quatro rapazes e dixo:
  – Nom há provas que o Fernão causasse esses pesadelos no Pim, no Dam e no Gos. Ademais, eles nom fôrom sinceros, nom contárom toda a verdade do que faziam ao Fernão...
  Os pais dos pindangos protestárom. Dixêrom que tudo quanto fizeram os seus filhos eram cousas de crianças, mas que o que fizera o Fernão era pura bruxaria e que isso merecia um castigo.
  Entom o diretor pediu aos pindangos:
  – Rapazes, debuxade aqui a criatura que vos perseguia.
  Os pindangos, apesar de serem maus debuxantes, conseguírom traçar umha criatura com pinta de T-Rex, mas feita à base de dónuts.
  Entretanto, noutra sala, pedira ao Fernão que debuxasse o monstro que ele cria que assustava os seus colegas da turma. E o que o Fernão debuxou era também umha espécie de T-Rex feito à base de roscas.
   Quando os pais dos pindangos comparárom os debuxos dos seus filhos com os do Fernão, estes imediatamente saltárom:
  – Vê, senhor diretor? Vê? É ele que cria esses pesadelos na cabeça dos nossos filhos! Expulse-o já!
  Só lhes faltou berrarem que queimasse o Fernão na fogueira, como se fazia séculos atrás com os bruxos ou os que pensavam que eram bruxos. Mas o diretor nom fezo nada disso. Colocou os debuxos na mesa e pediu a todos os pais que os examinassem atentamente.
  – Nom vem as diferenças? –acabou perguntando o diretor.
  Mas aqueles oito pares de olhos nom viam nada de peculiar, só quatro tiranossauros feitos à base de dónuts ou algo assim. O diretor tevo que explicar:
  – O que o Pim, o Dam e o Gos debuxárom é um roscossauro, salta à vista, porque é a criatura que os perseguiu. Porém, o que Fernão debuxou é um donutossauro. Observem que é diferente, embora sejam espécies emparentadas. O donutossauro é mais amarelo e vai coberto de mais açúcar. É que nom o vem?
  Aí os pais calárom. Que iam dizer? Nom eram expertos em criaturas dessas...
   Quando os pais de todos marchárom, o diretor ainda pediu ao Fernão para quedar uns minutos no seu escritório.
  – Fernão, nom te preocupes mais. Esses três nom te incomodarão mais.
  – Obrigado, diretor.
  O Fernão também ia sair pola porta, mas antes de marchar, ainda se virou e preguntou:
  – Por que me ajudou assim?
  O diretor, que acabava de começar um escrito no computador, detevo-se, olhou para o rapaz e dixo-lhe:
  – Porque quando rapaz, eu também fum assediado e tivem ajuda...
  – E também riam de si por comer dónuts?
  – Nom, nos meus tempos era porque eu passava o dia a debuxar elefantes e a construí-los de argila, de plastilina ou do que for.
  E justo nesse momento, o Fernão creu ouvir o grunhido dum desses paquidermos saíndo de debaixo da mesa do diretor, talvez dumha gaveta, mas já nom quiso perguntar mais. Só pensou que talvez algum día o elefante do diretor e o seu donutosauro poderiam chegar a conhecer-se e saírem juntos.

Frantz Ferentz, 2015


sábado, julho 04, 2015

O MISTÉRIO DO SEXO DE ÓLI [+12 anos]

Na segunda feira na primeira hora, a professora entrou na sala de aulas de 6ºB com um rapaz –ou rapaza– novo. Tinha o cabelo longo, principalmente por diante, até lhe cobrir os olhos. Vestia roupas folgadas, uns tênis normais e carregava umha mochila onde provavelmente levaba todos os seus livros.
– Rapazes, aqui está Óli. Vem do estrangeiro como aluno de intercâmbio pola vossa companheira Leila. Só ficará umha semana, desde hoje segunda até a sexta, mas há-se alojar na residência escolar, porque os pais da Leila tenhem cão e Óli tem alérgia ao pelo de cão. Espero que vos portedes bem, eh? E nom vos preocupedes, porque fala a nossa língua.
Todos os estudantes fitárom para aquele ou aquela Óli. E é que, o primeiro pensamento que surgiu entre eles foi se Óli era um rapaz ou umha rapariga. Pareceu como se o resto das cousas que tinham interesse para os rapazes daquela turma passassem a um segundo plano. Talvez fosse porque viviam num bairro tranquilo dos arredores dumha grande cidade, onde rara vez acontecia nada de interessante; portanto, ficarem a saber se aquele cativo que acabava de chegar era dum sexo ou do outro tornou-se umha qüestom de máximo interesse para todos os alunos.
Polas suas roupas era impossível afirmar se era rapaz ou rapariga. Pola sua voz, tampouco, porque nem falava, mas a certas idades é mesmo complicado distinguir o sexo pola voz. Ademais, Óli optou por sentar num recanto da sala de aulas à parte, sem parecer querer misturar-se com o resto de companheiros.
De todos os jeitos, nengum deles tinha a coragem de lhe perguntar se era el ou ela. Por isso, durante o primeiro recreio, todos os alunos da turma de 6ºB parárom de jogar os seus jogos tradicionais, já fosse saltar à corda ou dar pontapés à bola, para observarem aquele ou aquela Óli.
Mas Óli passou todo o recreio pendente do seu telemóvel, cousa que nom era para nada estranha, pois muitos deles também passavam o tempo a jogarem com aquele aparelho. Nesse sentido, Óli nom era umha exceçom.
Assim decorreu o primeiro dia de aulas sem os rapazes da escola darem sabido qual era o sexo de Óli. Houvêrom esperar até o segundo, quando a Sara, numha assembleia quase clandestina no ginásio da escola com o resto dos seus colegas de aulas, dixo:
– Há umha maneira de sabermos qual é o sexo de Óli sem nos complicarmos a vida.
– E qual é?
– Basta com vigiá-lo e saber se entra no banho dos rapazes ou das rapazas.
Aquela proposta da Sara pareceu bem a todos. Acordárom fazer pequenos grupos de vigia que nom perderiam de vista os movimentos de Óli durante o tempo que passasse na escola naquela manhã. Devia ficar ali quatro horas, de maneira que era mui provável que passasse, tarde ou cedo, polo banho.
Desse modo, durante o segundo dia, todos os rapazes da turma de 6ºB nom fizêrom outro que vigiar os movimentos de Óli quanto às necessidades fisiológicas. Em grupinhos, tentando passarem desapercebidos, fôrom vigiando os movimentos de Óli para ver se ia ao banho.
Mas nom foi. 
Nom pisou o banho em toda a manhã. É que nom tinha necessidade de fazer pis como toda a gente?
E assim chegárom ao terceiro dia. Antes de as aulas começarem, houvo umha nova assembleia dos estudantes. O mistério da identidade sexual de Óli aumentava. Naquela altura foi o Nel que propôso provarem outra estratégia:
– Durante o recreio, os rapazes jogamos futebol e as raparigas saltades a corda. E dous de nós, por exemplo, a Maria e o Lois, dim-lhe que jogue com os rapazes ou com as rapazas. Veramos o que escolhe. Se jogar futebol, é rapaz; se jogar a saltar, é rapariga.
– Eu nom concordo com isso –protestou a Carla–. Eu gosto de jogar futebol e sou rapariga!
Aí já se montou umha discussom, onde até o Pedro ia reconhecer que ele adorava saltar a corda.
– O de saltar a corda –dixo– é desporte igual que dar couces à bola.
– Nom digas parvadas –retrucárom-lhe.
– Tu nom viche como treinam os boxeadores? 
Aí já ninguém dixo nada, porque os boxeadores eram tipos duros que saltavam a corda para treinarem. 
Ao cabo conseguírom pôr-se de acordo. Já durante o recreio, os rapazes começárom umha partida de futebol, mas com a Carla, e as raparigas um festival de saltos da corda, com o Pedro, que preferia mil vezes saltar ali do que correr trás a bola e levar pontapés nos geolhos ou nas canelas.
Tal como estava planeado, a Maria achegou-se primeiro de Óli, quem nom parava de bater com os dedos na pantalha do seu telemóvel.
– Olá –saudou a Maria.
– Olá –devolveu o cumprimento Óli erguendo a vista do telemóvel.
– Ia-che perguntar se queres saltar a corda connosco.
E justo daquela chegou o Lois e dixo:
– De certo preferes jogar umha boa partida de futebol, nom sim?
Óli fitou para ambos os rapazes, como se estivesse a pensar em qual das duas possibilidades escolher. Os outros dous rapazes olhavam atentamente, como esperando umha resposta que fosse mudar o destino do planeta. 
Cabo duns segundos, que até parecêrom horas, Óli dixo:
– Nom gosto nem de bater na bola com o pé, nem de saltar por cima dumha corda. Do que gosto muito é...
Aí os dous rapazes quedárom de boca aberta.
– Do que gosto muito –prosseguiu– é de debuxar mapas estelares. Fago-o aqui no telemóvel. Há umha aplicaçom bem boa para isto...
Ambos os rapazes tivêrom o mesmo pensamento:
«E isso é próprio de rapazes ou de raparigas?»
Mas aí já Óli deixou de atender para eles e continuou a traçar linhas sobre a pantalha do seu telemóvel, mentres ainda dizia: 
– Constelaçom do Cavalo...
Foi um novo fracasso. Porém, quanto pior iam as cousas nesse sentido, mais interesse tinham os rapazes da turma de 6ºB por saberem qual era o sexo de Óli. Aquilo já estava a se tornar umha qüestom de honra para aquele grupo de rapazes e raparigas daquela pequena escola dum bairro pequeno e esquecido dumha grande urbe, onde quase nunca acontecia nada.
E assim chegárom ao quarto dia, que começou, como nom podia ser doutro jeito, com umha nova assembleia dos estudantes no ginásio antes do início das aulas.
Naquele dia, foi a Belém que propôso:
– Eu botaria um caldeiro de água por riba dele. Dessa maneira teria que mudar de roupa. Podemos ter roupa seca preparada, tomá-la da que se deixa no quarto de objetos perdidos e que há séculos que ninguém reclama. Escolheríamos roupa de rapaz e de rapariga.
– E como fás para lhe botar um caldeiro de água em riba sem que pareça que o fás de propósito? –perguntou alguém.
Essa era umha boa pergunta. Tinha que parecer um acidente.
– Fagamos umha guerra de balões de água justo antes de a campaínha soar –propôso o Henrique–. Podemos conseguir que três balões batam em Óli.
A todos pareceu umha boa ideia. Rapidamente fôrom comprar balões à loja da esquina e enchêrom-nos com água. Ficárom no pátio à espera de Óli. Quando apareceu pola cancela, fingírom que iniciavam a guerra, mas dissimulárom mal e pouco, porque imediatamente mais dumha dúzia de balões cheios de água fôrom bater diretamente contra Óli.
XAAAAAAAAAFFFFFFFFFF!
Óli ficou mais que ensopado. Parecia que o anticiclom dos Açores acabava de descarregar-lhe em riba e de golpe.
– Pobre!
– Que desgraça!
– Hui, quanta água!
– Molhache, eh?
Todos eram comentários para tentar ocultar um plano malévolo dos rapazes da turma. A seguir pusêrom em marcha a segunda parte do seu plano:
– Oi, há roupa seca aqui no quarto dos objetos perdidos, Óli. Vem e escolhe o que queiras.
Quase que toda a turma empurrou Óli até o quarto em qüestom, sem deixarem mesmo tempo para Óli protestar, porque o levavam como umha escolta de gorilas acompanha um cantor na moda para evitar ser incomodado polos seus fãs.
E umha vez na sala, a roupa estava perfeitamente separada em roupa masculina e feminina.
– Escolhe –dixêrom-lhe.
Óli olhou para toda aquela roupa, tanto para a masculina canto para a feminina. Era feia demais. Nom gostava nada do que ali via.
– Sabedes quê? –perguntou de repente Óli–, que nom me fai falta nada disso. Na mochila levo roupa demais. Sempre a levo, para acidentes imprevistos. E a minha mochila é impermeável. Importa-vos saírdes mentres mudo a roupa?
Todos quedárom boquiabertos. Ninguém esperava algo assim. Já era o quarto plano que fracassava. Afinal, saírom da sala todos e deixárom que Óli mudasse a roupa tranquilamente.
E assim chegárom à sexta feira, o derradeiro dia que Oli estaria na escola. Como já vinha sendo habitual, houvo umha assembleia dos estudantes da turma para discutirem sobre a qüestom que tanto interesse despertava neles.
– É que nom há maneira de saber qual é o sexo de Óli?
– Parece que nom.
– É um rapaz... ou rapaza... tão estranho. Nunca tal vim.
– Nem eu...
– Nem eu...
– Nom será hermafrodita? 
– Hermafrodita? E isso que é?
– É como as lombrigas, que tenhem os dous sexos. Eu lim sobre isso na internet...
– Eu penso que nom, que ou é rapaz ou é rapariga, mas nom há maneira de sabê-lo...
E entom alguém lançou a pergunta mais inteligente do dia:
– E se lho perguntamos?
– Perguntar?
– Sim, perguntar-lhe se é rapaz ou rapariga. Com o seu nome é impossível de saber.
Aí produziu-se um momento de silêncio sepulcral no ginásio da escola. A qüestom que roldava a cabeça de todos eles e elas era: «e quem tem coragem para perguntar a Óli qual é o seu sexo?»
– Fagamos um sorteio. A quem lhe tocar, há-lhe fazer a pergunta.
Aí estivêrom todos e todas de acordo. O sorteio consistiu em escolherem cadanseu pedacinho de papel, havia tantos como estudantes, mas só um tinha umha marca. Quem escolher aquele papel teria que perguntar a Óli polo seu sexo.
E tocou à Irene, quem virou toda vermelha pola vergonha que lhe causava tal tarefa.
– Podes fazê-lo quando esteia para marchar, ao final das aulas –dixo-lhe o Félix, quem estava apaixonado por ela desde o primeiro día que a conhecera, seis anos atrás–. E olha, se quiseres, pergunto-lhe eu por ti.
– Nom –respondeu a Irene–. Chega-me com que esteias ao meu lado quando tenha de perguntar...
Aquela resposta soou ao Félix como música celestial.
E foi assim como decorreu aquela sexta feira sem contratempos, até que chegou o final das aulas. Nom parecia que houvesse cerimónia nengumha, que o passo de Óli por ali ia passar inadvertido, porque nengum professor apareceu para despedir aquele estudante de intercâmbio. Por isso, já Óli ia marchar, mas os companheiros dixêrom-lhe:
– Óli, espera, queremos perguntar-che algo.
Óli detevo-se na porta. O Félix colocou-se ao carom da Irene e até a bateu suavemente com o côvado nas costelas dela.
– Oi, Oli –começou a Irene com todos os seus companheiros a lhe fazerem um semicírculo– e tu que vens sendo, rapaz ou rapariga?
Por fim lançara a pergunta!
A reaçom de Oli foi de rir. Sim, riu com aquela pergunta que lhe pareceu tão divertida. Depois, começou a falar:
– Com que era isso o que vos vinha inquietando toda a semana, nom sim? Bem, já que o perguntades, eu sou...
CATAPLUMMMM
Justo nesse momento esboroou um andaime de obras que havia fora da escola. O seu estrondo ao cair silenciara as últimas palavras de Óli.
– Passei-no bem aqui convosco –dixo antes de marchar–, mas para a próxima vez,  perguntade no princípio, nom no final.
E Oli foi embora, deixando os rapazes de 6ºB, mais umha vez, de boca aberta.

Frantz Ferentz, 2015