domingo, março 11, 2018

O LADRÃO DE TAREFAS [+10 anos]

Na casa do Nicolás acontecia algo muito estranho, mas apenas ele era capaz de o notar. Os adultos viviam felizes alheios a qualquer situação que o garoto sim notava, ou mais bem, sofria.

Acontecia que, cada vez que ele fazia uma tarefa da escola à tarde, ela tinha desaparecido de manhã. Não se importava onde é que ele a deixava, pois na manhã seguinte ela já lá não estava. Podia escondê-la sob a almofada, no armário e fechar com a chave, entre os papéis do trabalho da mamã... Chegou mesmo a metê-las no autoclismo dentro de um saquinho plástico, mas mesmo assim as tarefas da escola desapareceram.

"Quem me rouba as tarefas da escola nesta casa?" perguntou ele um dia.

"Não ser dizem essas coisas", replicou o papá. "Em casa ninguém rouba nada.

Mas era evidente que alguém lhe roubava as tarefas da escola. Quando pensava nisso, encontrava que não tinha qualquer lógica que os adultos da casa lhe roubassem nada e tampouco a irmãzinha que tinha dois anos e cuja paixão era apanhar um lápis de cores ou um marcador e desenhar na primeira parede que encontrasse.

Decerto se aquilo era uma piada não tinha qualquer graça, pois já na escola começou a ter sérios problemas. O professor Benjamim era capaz de botar faíscas pelos olhos quando um estudante não trazia as tarefas. Causava terror. Quando durante três semanas seguidas o Nicolás usou a mesma escusa para explicar que não tinha as tarefas feitas e que os castigos não serviam, dom Benjamim decidiu ter uma entrevista com os pais do Nicolás e também com a avó Marisa, que ia a toda a parte com eles, porque adorava sair de casa.

É melhor não contar como foi a entrevista. Já vocês imaginam. O Nicolás foi seriamente amonestado. De nada serviram as suas escusas. Mas então decidiu que ele sozinho ia descobrir quem lhe roubava as tarefas. Ia aproveitar o fim de semana para atrapar o ladrão. Esperava ter tudo resolvido para a segunda-feira antes de ele ir para a escola.

O Nicolás resolveu tender uma armadilha ao ladrão. Naquela noite da sexta-feira, adormeceu com umas tarefas falsas apegadas à sua barriga por baixo do pijama. Se alguém tentar roubar-lhe os papéis, ele ia notá-lo logo. Que o tentasse.

Assim, ele adormeceu tranquilo. Quando acordou, a primeira coisa que fez foi procurar os papéis por baixo do pijama. Não estavam lá! Como assim? Não tinha notado absolutamente nada.

Mas o Nicolás não se rendeu. Não, ele ia demostrar que não inventava escusas e que alguém decerto lhe roubava as tarefas. Embora a sua primeira estratégia tinha sido um insucesso, provaria uma outra coisa. De facto já tinha uma ideia.

Para a seguinte noite fez com que as tarefas ficassem impregnadas de pintura vermelha. Como no quarto tudo estava às escuras, o ladrão não se aperceberia até sair do quarto. Aliás, havia tanta pintura que até escorregadia pelo chão e deixaria um rasto que de manhã seria fácil para seguir.

É assim foi. De manhã cedo, o Nicolás comprovou que da mesa até a porta havia um rasto vermelho pelo chão. Quem levara as tarefas não estava ciente, mas mesmo assim não deixara pegadas.

O rapaz saiu do quarto. Atravessou o limiar e foi para o corredor seguindo o rasto. Já estava para entrar na cozinha, quando no chão já não havia qualquer marca. O que é que se passava lá? Como podia desaparecer no meio do nada um rasto de pintura vermelha? Mas então chegou uma voz zangada até as orelhas do Nicolas:

"Nicolásssssss, explica-me como é que o chão do teu quarto e do corredor tem todo esse risco vermelho! Não será sangue, eh?"

Seria inútil explicar a mãe toda a história, porque não a acreditaria. Era melhor calar-se e receber um castigo. Mas na sua cabeça já estava a se formar um novo plano. Um plano infalível. Um plano definitivo.

Para o levar a cabo, utilizaria a sua mais mortífera arma, aquela que reservava para ocasiões especiais. Antes de adormecer, preparou a armadilha. Depois, deixou a falsa tarefa escolar encima da mesa e deitou-se.

Por volta das três da madrugada, o Nicolás acordou. Tinha ouvido vários espirros nalgum lugar da casa. Devia atuar depressa, antes de os pais acordarem. Os espirros continuavam a cada pouco. Mas não soavam como se eles fossem produzidos por um humano, mas talvez por um gato.

No meio da noite, às escuras, o rapaz seguiu o rasto dos espirros. Os atchis soavam a cada vez mais perto. Seguiu pelo corredor até ao armário da entrada, uma massa enorme e escura que parecia um pequeno castelo encantado na casa, colocado ao lado da porta. Quanto medo lhe tinha causado a ele em pequeno. Pensava na altura que embora fosse um armário por fora, no seu interior cabia um castelo aterrador, com todo género de criaturas monstruosas.

Aqueles temores voltaram a ele. Parecia que, com efeito, lá dentro morava uma criatura mágica, se calhar era mesmo aterradora. Nesse momento não teve dúvida que os espirros procediam do interior do armário. Hesitou. Era valente demais para afrontar o que houver lá dentro? Reconheceu que lhe punha medo, sim, mas logo lembrou-se dos muitos problemas que aquilo que havia dentro do armário lhe tinha causado.

Finalmente resolveu chegar até ao fundo do assunto. Deu um passo para a frente, abriu a porta do armário de repente e...

Nada. Não havia nada de anormal. Só havia roupa de inverno pendurada. E sapatos na parte inferior. Porém, logo ouviu novamente um espirro. Vinha do interior do armário. Não tinha dúvida. Algum bicho estava lá dentro muito bem escondido, se calhar perfeitamente camuflado.

O Nicolás reagiu rapidamente. Prendeu a lanterna do seu telemóvel. Logo descobriu pedaços de papel muito pequenos no chão do armário. Não teve que se esforçar muito para reconhecer que eram fragmentos... das suas tarefas escolares desaparecidas nas últimas semanas!

Lá estava o ladrão. Sim, mas onde exatamente?

E de novo... atchis!

O ladrão estava atrapado. Não podia escapar para nenhuma parte, embora não houvesse hipótese de o ver lá dentro. 

De repente, um gato saltou sobre o Nicolás e a seguir fugiu pelo corredor, até se perder de vista.

"Regressa, maldito ladrão!", gritou o rapaz e saiu atrás dele.

Novamente houve tranquilidade no armário. Durante quase um minuto, lá dentro não se sentiu qualquer movimento. Depois, devagar, alguns saios começaram a se mexer. Não é que cobrassem vida, mas que um pequeno ser se deslocava entre eles com a intenção de sair do armário. Ainda teve vontade de espirrar, mas conseguiu não o fazer muito forte para não ser ouvido.

Debaixo do braço levava um feixe de papéis. Não havia muitos, mas com isso lhe chegaria para o pequeno-almoço. Ele adorava o sabor do papel em que se faziam as tarefas escolares, pois, antes de as comer, sempre as lia e até apreendia coisas novas.

Embora ele fosse invisível para o olho humano, poderia ser descoberto por eles. Portanto, nos lares humanos tentava viver sem ser notado. No entanto, aquele rapaz esteve para o acurrarar naquele armário graças àqueles pós para espirrar. Muito inteligente. Mas ele tinha sido ainda mais inteligente e tinha conseguido capturar o gato da vizinha no último momento para usá-lo como bode expiatório.

Naquela altura tinha saído incólume da armadilha, mas para a próxima ocasião, devia estar muito mais atento…

© Frantz Ferentz, 2018


terça-feira, março 06, 2018

DE ONDE VEÑEN AS LLAMAS | DONDE VÊM AS LHAMAS?




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O Miguel estaba fascinado con aquel animal que tiña ante si. A súa cabeza ficaba máis alta ca el e o pescozo do animal era longo demais. Ambos se contemplaban mutuamente, con curiosidade. O animal, cuxo corpo estaba todo cuberto de las, de vez en cando baixaba a cabeza até o chan para arrancar herba e mastigala.

"Gustas da llama?", preguntou unha voz por tras do Miguel. Era o seu avó Evaristo, que quedara á espreita do neto e do animal-

"Chámase llama?", preguntou o Miguel.

"Chámase", respondeu o ancián. "Son unhas criaturas incríbeis. Dan la, carne e serven para axudar os labregos dos Andes.

A llama ouvía todo o discurso sen parar de mastigar. Escoitaba e mexía a cabeza, como se asentise.

Mal había dúas semanas que o Miguel e a súa familia, incluído o avó, chegaran a Quito. Todo estaba a ser novo para o rapaz, mais probabelmente aquel animal, que pacía tranquilo a poucos quilómetros da cidade era o máis exótico que vira até daquela.

"E de onde veñen as llamas?", preguntou o Miguel ao avó.

O avó aclarou a gorxa e explicou:

"As llamas son animais mitolóxicos. Cando os españois chegaron a América, trouxeron ovellas e cabalos entre outros moitos animais. E conta a lenda que, nunha noite de lúa chea, un cabalo e unha ovella se apaixonaron nunha floresta dos Andes. Escaparan para vivir xuntos e do seu amor naceu unha criatura diferente", explicou o avó. "Olla ben como a cabeza da llama é a dunha ovella, mais o seu corpo é o dun cabalo, aínda que cuberto de las. Desde aquela, as llamas poboaron os Andes".

E sen máis, o avó virouse e deixou o seu neto só coa llama, que continuaba a mastigar herba. Cando xa os dous estiveron sós, o humano e a llama, o animal parou de mastigar e dixo:

"O teu avó ten unha fantasía extraordinaria...Eu non che son ningún fillo de ovella e de cabalo, son parente dos camélidos da África e da Asia".

Miguel fitou para ela sen dar crédito.

"Dixeches algo?", preguntou o rapaz.

Mais a llama xa non respondeu. Simplemente continuou a masgar na herba, como se aquilo non fose con ela.


La imagen puede contener: exteriorO Miguel estava fascinado com aquele animal que tinha ante si. A sua cabeça ficava mais alta ca ele e o pescoço do animal era longo demais. Ambos se contemplavam mutuamente, com curiosidade. O animal, cujo corpo estava todo coberto de lãs, de vez em quando baixava a cabeça até o chão para arrancar erva e mastigar nela.

"Gostas da lhama?", preguntou umha voz por trás do Miguel. Era o seu avô Evaristo, que quedara á espreita do neto e do animal.

"Chama-se lhama?", preguntou o Miguel.

"Chama-se", respondeu o ancião. "Som umhas criaturas incríveis. Dão lã, carne e servem para ajudar os labregos dos Andes.

A lhama ouvia todo o discurso sem parar de mastigar. Escutava e mexia a cabeça, como se assentisse.

Mal havia duas semanas que o Miguel e a sua família, incluído o avô, se deslocaram para Quito. Tudo estava a ser novo para o rapaz, mas provavelmente aquele animal, que pascia tranquilo a poucos quilómetros da cidade, era o mais exótico que vira até daquela.

"E donde vêm as lhamas?", preguntou o Miguel ao avô.

O avô aclarou a gorja e explicou:

"As lhamas som animais mitológicos. Quando os espanhóis chegárom a América, trouxêrom ovelhas e cavalos entre outros muitos animais. E conta a lenda que, numha noite de lua cheia, um cavalo e umha ovelha se apaixonárom numha floresta dos Andes. Escaparam para viver juntos e do seu amor nasceu umha criatura diferente", explicou o avô. "Olha bem como a cabeça da lhama é a dumha ovelha, mas o seu corpo é o dum cavalo, embora coberto de lãs. Desde aquela, as lhamas povoárom os Andes".

E sem mais, o avô virou-se e deixou o seu neto só com a lhama, que continuava a mastigar erva. Quando já os dous estivêrom sós, o humano e a lhama, o animal parou de mastigar e dixo:

"O teu avô tem umha fantasia extraordinária...Eu nom che sou nengum filho de ovelha e de cavalo, sou parente dos camélidos da África e da Ásia".

Miguel fitou para ela sem dar crédito.

"Dixeche algo?", preguntou o rapaz.

Mas a lhama já nom respondeu. Simplesmente continuou a masgar na erva, como se aquilo nom fosse com ela.

© Frantz Ferentz, 2018 


terça-feira, novembro 28, 2017

NO CAMPO DE REFUXIADOS|REFUGIADOS [+12 anos]


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No campo de refuxiados, os rapaces quedaron sen unha triste bóla con que xogaren. O aborrecemento estaba a tomar conta dos rapaces que sempre pasaban as horas interminábeis de estadía nel a xogaren partidas de desportes inventados, mais sempre con bólas. Porén, daquela, non quedaba unha triste bóla, porque os gardas requisaran todas. Parecía que o seu labor era precisamente lixar aínda máis os rapaces.

"Pai, ficamos sen bólas". Esas foran as únicas palabras que o Ahmed dixo ao pai.

Este xa sabía o que significaba. Fixo un aceno discreto aos cinco homes que estaban ao pé del, ociosos e sen nada para facer, mais que non perdían detalle do que facían os seus fillos naquel areal onde se alzaba o campo de refuxiados.

"Eh, gardas, tendes cara de fatos e non sabedes nin vos amarrar os cordóns das botas", berrou o pai do Ahmed mentres os remedaba, xunto cos outros cinco homes, do interior da reixa que impedía a saída dos refuxiados do acampamento.

Rapidamente, media ducia de gardas colleron as súas espingardas e desde unha distancia regulamentar, dispararon material antidisturbios contra os cinco homes descarados que ousaban mofarse deles. Foi unha chuvia de proxectiles disparados na dirección dos homes, mais practicamente ningún deles alcanzou ningún corpo, pois os homes correron para o interior do acampamento alzando unha vizosa nube de pó.

Cabo duns minutos, o pai do Ahmed aproximouse do fillo coa camisa envurullada á altura do ventre.

"Toma", dixo o pai e deixou á vista dúas ducias de bólas de goma que os gardas dispararan a el e aos compañeiros. "Xa podedes retomar as vosas partidas".

"Graciñas, pai", dixo o rapaz todo feliz e saíu ás carreiras contra os amigos, con todas as bólas de goma antidisturbios que eles ben saberían reutilizar.



Resultado de imagen de refugee campNo campo de refugiados, os rapazes quedárom sem uma triste bola com que jogarem. O aborrecimento estava a tomar conta dos rapazes que sempre passavam as horas intermináveis de estadia nele a jogarem partidas de desportes inventados, mas sempre con bolas. Porém, daquela, não quedava uma triste bola, porque os guardas requisaram todas. Parecia que o seu lavor era precisamente lixar ainda mais os rapazes.

"Pai, ficámos sen bolas". Essas foram as únicas palavras que o Ahmed dixo ao pai.

Este já sabia o que significaba. Fezo um aceno discreto aos cinco homens que estavam ao pé dele, ociosos e sem nada para fazer, mas que não perdiam detalhe do que faziam os seus fillos naquele areal onde se alçava o campo de refugiados.

"Eh, guardas, tendes cara de fatos e non sabeis nem vos amarrar os cordões das botas", berrou o pai do Ahmed mentres os remedava, junto com os outros cinco homens, do interior da reixa que impedia a saída dos refugiados do acampamento.

Rapidamente, meia dúzia de guardas colhêrom as suas espingardas e desde uma distância regulamentar, disparárom material antidistúrbios contra os cinco homens descarados que ousavam mofar-se deles. Foi uma chuva de projetis disparados na direção dos homens, mas practicamente nenhum deles alcançou qualquer corpo, pois os homens corrêrom para o interior do acampamento alçando uma viçosa nuvem de pó.

Cabo duns minutos, o pai do Ahmed aproximou-se do filho com a camisa embrulhada na altura do ventre.

"Toma", dixo o pai e deixou à vista duas dúzias de bolas de goma que os guardas dispararan a ele e aos companheiros. "Já podeis retomar as vossas partidas".

"Gracinhas, pai", dixo o rapaz todo feliz e saiu às carreiras contra os amigos, com todas as bolas de goma antidistúrbios que eles bem saberiam reutilizar.


© Frantz Ferentz, 2017

segunda-feira, junho 19, 2017

A PIRATA FERROLINHA [+8 anos]

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A Cristina Río López

A Cristina decidiu que já estava farta de ser roubada. Ela trabalhava honestamente, mas o seu último cliente inventava mil escusas para não lhe pagar. A última dizia que as notas estavam doentes, de forma que uma nota de 100 euros marcava 95 por estar constipada, portanto, até ela não se recuperar, não podia pagar-lhe o devido.

A Cristina já não aturou mais. Disse que já chegava. E então decidiu tornar-se pirata. Como vivia perto do mar, não lhe custou muito encontrar uma barquinha. Estava velha, mas venderam-na por pouco dinheiro. Com um cobertor velho fabricou uma vela. Depois, com um lenço preto fez a bandeira pirata, que ela mesma desenhou, com muito jeito, pois primeiro pintou em branco a caveira e depois os dois ossos. Via-se muito giro. Finalmente, colocou-se um lenço preto na cabeça, pôs botas de goma e um remendo de olho, mas não sabia de certo se colocá-lo no olho direito ou no esquerdo. Contudo, embora levasse o remendo, ainda podia levar os seus óculos por cima.

Como ela era do Ferrol, decidiu procurar um nome. Não ia ser a pirata Cristina, porque assim ninguém a levaria a serio. Não, ela, como Dom Quixote, levaria o nome da sua terra, e mais ainda, chamar-se-ia como a sua terra, portanto, ela seria a pirata Ferrolinha. Sim, aquilo bem pronunciado punha medo. E por riba, pintou um bigode com carvão que lhe dava um aspeto ainda mais fero e, aliás, comprou uma espada de plástico num bazar chinês por três euros, mas que parecia muito real.

E assim, a Cristina lançou-se a navegar pelo Atlântico, sozinha, bom, não completamente, a sua equipagem estava composta por ela, como capitã pirata, e o seu gato. Aproximava-se dos grandes barcos de passageiros e gritava:

 Sou a pirata Ferrolina e vou assaltá-los. Botem uma escada para cá baixo, que vou subir.

Os passageiros adoravam. Ninguém levava a sério a Cristina. Todos achavam que era parte de um espetáculo e lançavam moedas e moedas para ela. A Cristina estava convicta que os passageiros morriam de medo e por isso lançavam as moedas para o seu bote.

Durante todo o verão esteve a ameaçar os barcos de passageiros. E sempre com o mesmo resultado, que cada vez que gritava que ia assaltá-los, os passageiros lançavam moedas e moedas. E chegou um momento em que tanta moeda fazia com que a barca arriscasse de ir para o fundo. E é que os passageiros, bastante aborrecidos com aqueles cruzeiros, gostavam de ver uma menina com um bigode pintado e disfarçada em pirata fazer representações teatrais ali no meio do Atlântico. Até os golfinhos começaram a segui-la, porque gostavam do seu espetáculo. Porém, a Cristina cria a sério que era uma pirata, mas só o cria ela, e talvez o seu gato, mas ele não dizia nada, só dormia e comia sardinhas.

E assim, a Cristina, também conhecida como a pirata Ferrolinha, teve que voltar para casa porque tinha a barca tão carregada de moedas que já nem podia navegar. Com o dinheiro ganhado, comprou uma horta e dedicou-se a plantar tomates, batatas, cenoiras e feijões.

E o que foi do cliente da Cristina? Ah, esse foi incluído numa lista de piratas pela Cristina e agora o seu gabinete é visitado todos os dias pelos passageiros dos cruzeiros, que ficam à espera dele sair a cumprimentá-los com um remendo de olho, mas ele não gosta da ideia, coitadinho...

© Frantz Ferentz, 2017

quinta-feira, maio 11, 2017

DE OFICIO: P.E.T.A. [+10 anos]

A K.G. P. Guevara

   Na torre de controlo do aeroporto saltaron todas as alarmas. O que algúns sospeitaban que acontecería, aconteceu. Parecía imposíbel, mais non, finalmente o máis estraño, o máis raro, o máis incríbel, tivera lugar. Moitos dos que alí traballaban ouviran falar daquel fenómeno, mais non o viviran en primeira persoa. Até se tería feito algún filme sobre iso, mais atopalo alí diante, a poucos metros do vidro da torre de controlo, era algo que ninguén esperaba e, menos aínda, que tivese acontecido tan rápido.
E de que estamos a falar, se se pode saber? preguntaredes algúns de vós.
Está ben, deixémonos de lerias e contemos o que acababa de acontecer no aeroporto do Mariscal Sucre de Quito. Mais heivos confesar que non é doado narrar “iso”. Ben, está ben, tentémolo.
Ás 17h15 estaba prevista a descolaxe dun voo de Quito para Madrid. Era un voo que partía cinco veces por semana. Había anos que viña sendo así e nunca aquel Airbus deixara de voar, nunca nos seus dez anos de vida.
Até aquel 3 de maio.
Naquel 3 de maio, o avión non reaxiu cando o comandante o puxo en marcha. Axiña os servizos técnicos do aeroporto se lanzaron para ver as tripas daquel Airbus. Dez técnicos armados de aparellos de todo xénero chequearon todos os sistemas do avión, e non unha nin dúas, mais tres veces. E a final chegaron a unha conclusión incríbel: que o avión non tiña ningún problema técnico. Absolutamente ningún. Daquela, por que non decolaba?
Ninguén o sabía. Tampouco ninguén tiña unha proposta. Nin sequera o piloto.
Porén, nun dos computadores da torre de controlo, un que estaba permanentemente ligado, mais que ninguén utilizaba, prendeuse un piloto vermello. Desde sempre, aquel computador estaba naquela sala sen ninguén se ocupar con el, sabían que era un mandado do ministerio, mais ningún operador traballaba con el. Na pantalla daquel computador apareceu unha mensaxe: Guevara 0999876542.
Todos os operadores da torre de controlo fitaron para aquela mensaxe inexplicábel, até que alguén lle dixo:
— E se Guevara fose un apelido e o número que vén a seguir fose o seu número de telemóbil?
Era unha hipótese. O xefe do servizo quitou o seu telemóbil e marcou un número. Soaron tres tons. Despois, unha voz de muller respondeu:
— Doutora Guevara ao aparello.
— Doutora, o seu nome e número apareceron na pantalla de un dos nosos computadores no aeroporto.
— Se callar un avión que non descola?
— Exacto.
— Vou para aló —dixo a doutora.
Unha hora despois, salvando o tránsito infernal de Quito, a doutora Guevara chegaba nun taxi ao aeroporto. Axiña subiu á torre de controlo.
— Cal é o avión en cuestión? —preguntou a doutora así que estivo na sala de controlo.
— Aquel de alí —dixéronlle acenando para o Airbus.
Sen perder máis tempo, a doutora Guevara sentou diante do computador en que aparecera o seu nome xunto co seu teléfono. Comezou a teclear. Inmediatamente se estableceu un batepapo cun locutor descoñecido que respondía ao nome de Petri. Estiveron a bater o papo durante ao menos dez minutos. Na sala non se mexía nin unha pestana, todos estaban pendentes da doutora, sen entenderen como se dedicaba a bater o papo no medio dunha situación tan complicada, mais ninguén ousou pedirlle explicacións.
Cabo duns minutos, a doutora ergueuse da cadeira e falou co xefe da torre.
— O Airbus está deprimido.
Un comentario así tería provocado as gargalladas de calquera, mais coa tensión que se mascaba no ambiente, ningún dos controladores sequera esbozou un sorriso.
— Verá —continuou a explicar a doutora—. Estiven a bater o papo coa computadora de abordo, que se fai chamar Petri. Cóntame que os sensores do avión detectaron un pasaxeiro que choraba porque non quería ir embora. Producía tanta tristeza que o avión se contaxiou dela e está para entrar en depresión...
Aquelas palabras que poderían parecer un chiste tampouco provocaron gargalladas, apenas vontade de ligar para os louqueiros, mais o xefe da torre de controlo non ía permitir que alí acontecese nada, por tanto só preguntou:
— E dígame, doutora, o que se supón que temos de facer?
— Creo que é sinxelo. Desembarquen o pasaxeiro en cuestión e afásteno do aparato, onde as súas vibracións non cheguen aos sensores do avión. Cando iso acontecer, o avión recuperará o seu ton vital normal e poderá descolar.
Todos contemplaban aquela muller coa cabeza chea de caracois que falaba tan seriamente.
Ao cabo, o técnico máis novo da torre, acabado de chegar alí a traballar, atreveuse a quebrar o silencio de todos os seus compañeiros e preguntou á doutora:
— Desculpe a indiscreción.
— Claro, dígame —respondeu a doutora Guevara cun sorriso.
— A señora é enxeñeira aeroespacial?
— Oh, non. De facto soulle PETA.
— PETA? Nunca ouvín falar diso.
— Significa Psicoterapeuta Especializada en Traumas Aeronáuticos.
— Continuo sen entender —dixo o controlador mozo.
— Psicóloga de avións, meu rei, que non pescas nada —explicou o seu xefe—. E agora, fagan o que dixo a doutora. E rapidiño…

© Texto: Frantz Ferentz, 2017
© Ilustración: M. Dolores Valencia, 2017

quinta-feira, março 09, 2017

O ATAQUE DO MONSTRO BOLACHEIRO [+8 anos]

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Todos na cidade quixeron esquecer aquel tremendo episodio. Se hoxe preguntades a alguén polo que alí aconteceu naquela altura, ninguén recoñecerá que se lembra, embora si se lembren. E non me estraña, pois aquel episodio, aínda que breve, ameazou con destruír toda a cidade.

Vou parar de dar rodeos e vouvos contar os factos tal como acenteceron. Os inicios desta estoria non son moi claros, pois ninguén sabe exactamente como se xerou aquela criatura. Tampouco ninguén sabe de onde vén o Godzila do Xapón, mais aí está e dá para facer moitos filmes. Porén, ninguén querería facer un filme sobre unha bolacha de xenxibre xigante, mais esa é a criatura de que vos vou falar. Canto ás súas orixes, como digo, continúan a ser un misterio, mais eu teño a miña propia teoría. Coido que polo lugar onde apareceu o monstro, ao lado dunha escola, e a poucos metros dunha fábrica de produtos químicos, o monstro naceu pola manía de moitos nenos de botaren os restos das súas bolachas de xenxibre a un vello pozo abandonado ao pé da escola. Non sei de onde lles vén a manía (e a min tamén, hei confesalo, porque as manías son contaxiosas, coma as modas). De certo, todos os rapaces, da que saíamos da escola, tíñamos o costume de botar os restos das bolachas de xenxibre que nos daban para a sobremesa nese pozo, porque, hai que ser sinceros, eran unhas bolachas ben ruíns. Durante moitos anos, todos os estudantes da escola tiñan participado dese ritual. E penso eu que, no fondo dese pozo, había líquidos mortíferos que a fábrica de produtos químicos vertía para alí ilegalmente, sen coñecemento das autoridades.

Sexa como for, un bo día, da que amañecía, o tránsito todo ao lado da escola foi interrompido. Da boca do pozo xurdiu unha criatura que medía por volta de dez metros. Axiña a xente entrou en pánico. As primeiras imaxes da televisión mostraban un monstro feito de xenxibre, con forma humanoide, coma as bolachas, que camiñaba pola rúa esmagando todo ao seu paso. Tamén coma as bolachas, na cabeza tiña dous ollos brancos e unha boca inmensa, con só algúns dentes. Era pavoroso. Segundo camiñaba, esmagaba autos, daba couces aos autobuses, levaba por diante os cabos da luz e parecía que a electricidade apenas lle facía cóxegas. Tremendo. Enseguida acudiron as forzas de seguridade. Primeiro tentaron capturalo cunha rede, mais rompeu nela cunha facilidade pasmosa. Despois, xa decidiron que tiñan que facer coma no Xapón, disparar contra a criatura até derrubala, para evitar que esmagase a cidade, porque en media hora xa tiña deixado o barrio ao redor da miña escola case todo el en ruínas. Era unha devastación.

Dado que eu son curioso demais, ficara a unha certa distancia a contemplar aquela cena. Pillárame indo para escola e para un día que indo para aló vía algo interesante, decidín quedar. Con todo, decateime que de todos os edificios do barrio, o único que non sufrira danos fora a escola. "Por que?", pregunteime. Debía haber algo nela que mantivese afastada aquela criatura. Non podía ser nada relacionado coa sabedoría, nin sequera os libros. Non, debía ser outra cousa moi diferente, mais o que? 

A miña cabeza xiraba a toda a velocidade. O problema da bolacha xigante de xenxibre xurdira na escola e nela tiña que estar a solución. E entón un pensamento acudiume. Claro, por iso o monstro xenxibreiro evitaba a escola. Se a miña teoría era correcta, aquela cousa na parte traseira do patio acabaría coa bolacha destrutora.

Porén, primeiro tiña que chamar a súa atención. Como xa non había nin policías perto del, só uns helicópteros lle seguían a pista a boa distancia, eu era o único ser humano na zona. Se conseguía que reparase en min, sería doado que me seguise até onde eu quería. Ademais, até sabía como provocar a súa furia.

Corrín para el. Detivenme cando estaba a só uns cen metros. Despois gritei para atraer a súa atención:

— Eh, monstro xenxibreiro, olla o que fago.

Tiven que chamar por el tres veces, mais non me sentiu. Entón quitei aquilo do peto e trabei na pasta. O ranxer daquela bolacha ao ser partida polos meus dentes si fixo que o monstro atendese para min. Si, o seu ouvido bolacheiro sentiu como eu trababa nunha criatura da súa especie, unha bolacha de xenxibre normal e corrente. 

A partir de aí, todo se precipitou. Eu corrín para a escola, co monstro por tras de min a me pisar nos calcañares. Acelerei todo canto puiden, atravesei a cancela da escola que, loxicamente estaba aberta e non era de esperar que me esperase o bedel para me recriminar que chegaba tarde. Non, ademais, case que podía sentir o alento do monstro na miña caluga. Se me pillase, o que é que faría comigo, engulirme? 

Conseguín abrir a porta do caseto da traseira do patio e fiquei á espera. E tal como esperaba, o monstro bolacheiro varreu o teito dun golpe e saltou para dentro. O meu plano funcionara. O pesadelo rematara.

Cando un bocadiño despois acudiu a policía e os xornalistas, ninguén podía entender o que acontecera. Eu tiven que lles explicar:

— Lembreime que o único que destrúe as bolachas de xenxibre que nos dan na escola é o leite. Por iso, pensei que a única maneira de destruír un monstro bolacheiro de xenxibre era igualmente facéndoo caer no leite. E iso fixen, atraín o monstro até o depósito de leite que hai na traseira da escola e tendinlle unha trampa para que caese no depósito. Así conseguín acabar con el.

Eu estaba feliz polo resultado, mais non demorei moito até me arrepender. O director da escola decidiu que aquela cantidade enorme de bolacha de xenxibre non se podía desaproveitar, embora tivese pertencido a un monstro bolacheiro. Durante os seguintes seis meses, tivemos leite con bolacha de xenxibre para a sobremesa todos os días. O bo diso foi que máis ninguén voltou a botar os restos das bolachas de xenxibre ao pozo despois das aulas.

Frantz Ferentz, 2017

terça-feira, fevereiro 14, 2017

OS SONHOS|SOÑOS DA CAROLINA [+10 anos]

A Carolina era uma grande sonhadora. Ela passava o tempo a sonhar, tanto que inclusive durante o dia ela sonhava com os olhos abertos, e até adormecia quando não devia, como quando tinha aulas, porque a Carolina não podia parar de sonhar, ou mais bem não queria.

A sua mãe sempre a repreendia. Dizia-lhe que tinha que estar desperta e se tinha que sonhar, que sonhasse à noite. Mas a Carolina não conseguia. Ela sonhava a qualquer hora, até ficava com a colher na mão e o olhar suspenso.

— Toma a sopa, Carolina! —dizia-lhe a mãe, mas a Carolina, embora voltasse do país dos sonhos, fingia continuar a sonhar, porque não gostava de sopa.

A mestra disse para a mãe que a atitude da menina era um desastre. Como sonhava desperta, vinha-lhe o sono em qualquer momento e adormecia no meio das aulas.

— Vou levar-te para o doutor —disse-lhe a mãe.

O doutor quis arranjar tudo com pílulas, mas as pílulas o único que conseguiram foi que a Carolina tivesse pesadelos.

— Mamã —explicou a menina—, eu não consigo parar de sonhar. Tenho a cabeça cheia de sonhos.

— Tens que fazer é estudar —concluiu a mãe que não queria ouvir qualquer argumentação—. Não podes ter a cabeça cheia de pássaros.

A Carolina sentia-se infeliz. Se calhar, a mãe tinha razão e a sua cabeça estava cheia de pássaros.

Uma amiga da mãe, uma senhora esquisita que gostava do esotérico, disse que tinham que colocar atrapa-sonhos por toda a casa (na escola não se podia), para os sonhos não aboiarem na cabeça da Carolina. A mãe deu ouvidos àquela ideia estranha, mas a única coisa que conseguiu foi que a Carolina não parasse de espirrar, porque tinha alergia às plumas dos atrapa-sonhos.

Até àquele dia. Uma noite, a Carolina sonhou que sonhava. Nunca lhe tinha acontecido nada assim, ou pelo menos ela nem se lembrava. Sabia que estava a sonhar que sonhava, porque no sonho principal aparecia a sua mãe que lhe gritava: “Pega nesse sonho, não deixes que fuja”. E no sonho do sonho, havia um pássaro que tinha escapado da sua cabeça, mas não tinha onde pousar. Então, de repente, encontrou um ramo de uma árvore. Pousou nele e converteu-se num fruto, um fruto desconhecido, mas muito aromático. A Carolina do primeiro sonho quis tomar o fruto, mas ele, o fruto, disse-lhe:

— Não me arranques! Sou um sonho.

— Como assim?

— Sim, os sonhos somos como os frutos. Tens que nos deixar crescer até amadurecermos. Depois, já podemos ser tomados.

— E os sonhos, como as frutas, têm sabor?

— Isso tens de provar tu.

Então o segundo sonho desapareceu e a Carolina despertou no seu primeiro sonho. A mãe estava ao pé dela.

— Pegaste nesse pássaro? —perguntou a mãe.

— Não. E não era um pássaro, era um sonho.

E nesse instante, a Carolina acordou. Estava na sua cama. Fora amanhecia. Era quase a hora de se erguer. Vestiu-se porque tinha que se preparar para ir à escola. Lembrava-se dos dois sonhos. Na altura pensou:

— Se os sonhos são como os frutos, eu deveria ter uma cesta para os recolher quando amadurecerem.
Durante uns instantes pensou em que poderia utilizar como cesta dos sonhos. De repente lembrou-se de um presente do Natal que metera numa gaveta, porque não lhe interessara nada. Era um diário que lhe oferecera uma tia dela. Logicamente estava em branco.

Pegou nele e meteu-o na mochila para o levar à escola. Um diário era, precisamente, a melhor cesta para recolher sonhos. E foi embora, contente, ainda mais sonhadora do que nunca, porque por fim tinha compreendido que não precisava passar o dia a perseguir os seus sonhos, mas podia escrevê-los no seu diário e assim tê-los sempre ao alcance dos olhos.

E assim que saiu para a rua, uma cagadinha de pássaro caiu-lhe na cabeça. A Carolina olhou para o ar e reconheceu o pássaro do seu sonho no sonho. Até lhe pareceu que, enquanto empreendia o voo, o pássaro ainda ria divertido, porque os sonhos também gostam de fazer brincadeiras.


 *   *   *



A Carolina era unha grande soñadora. Ela pasaba o tempo a soñar, tanto que até durante o dia ela soñaba cos ollos abertos, e mesmo adormecía cando non debía, como cando tiña aulas, porque a Carolina non podía parar de soñar, ou máis ben non quería.

Súa nai sempre a reprendía. Dicíalle que tiña que estar esperta e, se tiña que soñar, que soñase á noite. Mais a Carolina non o daba feito. Ela soñaba a calquera hora, até ficaba co culler na man e o ollar suspenso.

— Toma a sopa, Carolina! —dicíalle a mai, mais a Carolina, embora voltase do país dos soños, finxía continuar a soñar, porque non gustaba da sopa.

A mestra dixo á mai que a actitude da meniña era un desastre. Como soñaba esperta, víñalle o sono en calquera momento e adormecía no medio das aulas.

— Vou levarte onda o doutor —díxolle a mai.

O doutor quixo arranxar todo con pílulas, mais as pílulas o único que conseguiron foi que a Carolina tivese pesadelos.

— Mamá —explicou a meniña—, eu non dou parado de soñar. Teño a cabeza chea de soños.

— O que tes que facer é estudar —concluíu a nai que non quería ouvir calquera argumentación— Non podes ter a cabeza chea de paxaros.

A Carolina sentíase infeliz. Se callar, súa nai tiña razón e a súa cabeza estaba chea de paxaros.

Unha amiga da mai, unha señora ben estraña que gustaba do esotérico, dixo que tiñan que colocar atrapa-soños por toda a casa (na escola non se podía), para os soños non aboiaren na cabeza da Carolina. A mai deu ouvidos a aquela idea estraña, mais a única cousa que conseguiu foi que a Carolina non parase de espirrar, porque tiña alerxia ás plumas dos atrapa-soños.

Até aquel día. Unha noite, a Carolina soñou que soñaba. Nunca lle acontecerao nada así, ou polo menos ela nin se lembraba. Sabía que estaba a soñar que soñaba, porque no soño principal aparecía a súa mai que lle berraba: “Colle ese soño, non deixes que fuxa”. E no soño do soño,  había un paxaro que escapara da súa cabeza, mais non tiña onde pousar. Entón, de repente, encontrou un ramo dunha árbore. Pousou nel e converteuse nun froito, un froito descoñecido, mais moi aromático. A Carolina do primeiro soño quixo tomar o froito, mais el, o froito, díxolle:

— Non me arranques! Sou un soño.

— E logo?

— Si, os soños somos coma os froitos. Tes que nos deixar crecer até madurecermos. Despois, xa podemos ser tomados.

— E os soños, como as froitas, teñen sabor?

— Iso tes de probar tu.

Entón o segundo soño desapareceu e a Carolina espertou no seu primeiro soño. A mai estaba ao pé dela.

— Atrapaches ese paxaro? —preguntou a mai.

— Non. E non era un paxaro, era un soño.

E nese instante, a Carolina acordou. Estaba na súa cama. Fóra amañecía. Era case a hora de se erguer. Vestiuse porque tiña que se preparar para ir á escola. Lembrábase dos dous soños. Na altura pensou:

— Se os soños son coma os froitos, eu debería ter unha cesta para os recoller cando madureceren.

Durante uns instantes pensou en que podería utilizar como cesta dos soños. De repente lembrouse dun presente do Nadal que metera nunha gabeta, porque non lle interesara nada. Era un diario que lle ofrecera unha súa tía. Loxicamente estaba en branco.

Colleuno e meteuno na mochila para o levar á escola. Un diario era, precisamente, a mellor cesta para recoller soños. E foi embora, contente, aínda mais soñadora do que nunca, porque por fin comprendera que non precisaba pasar o día a perseguir os seus soños, mais podía escribilos no seu diario e así telos sempre ao alcance dos ollos.


E así que saíu para a rúa, unha cagadiña de paxaro caeulle na cabeza. A Carolina ollou para o ar e recoñeceu o paxaro do seu soño no soño. Até lle pareceu que, mentres emprendía o voo, o paxaro aínda ria divertido, porque os soños tamén gustan de facer brincadeiras.

© Frantz Ferentz, 2017


quinta-feira, janeiro 26, 2017

O PRESENTE DO PAI [+8 anos]

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Meu pai estaba moi contento co presente que recibira polo seu día de anos. A avoa ofrecéralle un Ferrari. Meu pai deulle un bico na meixela. Porén, miña mai, asustada de ver aquel presente tan caro, dixo á avoa:

— E logo, mamá, liquidaches todos os teus aforros no banco dun golpe para facer ese presente ao meu home? Seica perdiches a cabeza?

— Filla —replicou miña avoa—, eu só seguín as instrucións que me enviaras polo telemóbil.

E mostroulle o telemóbil. Alí claramente dicía: "Suxerimento presente para Carlos: compra Ferrari". Miña nai, furiosa, botou o seu telemóbil para a sanita mentres explicaba:

— Eu quixen dicir "Ferrero", os bombóns. Maldito corrector automático, maldito corrector...!


Meu pai estava mui contento com o presente que recebera polo seu dia de anos. A avoa ofrecera-lhe um Ferrari. Meu pai deu-lhe um bico na meixela. Porém, minha mãe, assustada de ver aquele presente tão caro, dixo à avoa:

— E logo, mamã, liquidache todos os teus aforros no banco dun golpe para facer esse presente ao meu homem? Seica perdeche a cabeça?

— Filha —replicou minha avoa—, eu só seguim as instruções que me enviaras polo telemóvel.
E mostrou-lhe o telemóvel. Ali claramente dizia: "Sugerimento presente para Carlos: compra Ferrari". Minha nai, furiosa, botou o seu telemóvel para a sanita mentres explicava:

— Eu quisem dizer "Ferrero", os bombons. Maldito corretor automático, maldito corretor...!


O meu pai estava muito contente com o presente que recebera pelo seu dia de anos. A avó oferecera-lhe um Ferrari. O meu pai deu-lhe um beijinho na bochecha. Porém, a minha mãe, assustada de ver aquele presente tão caro, disse à avó:

— Como assim, mamã, liquidaste todas as tuas poupanças no banco de um golpe para fazer esse presente ao meu homem? É que perdeste a cabeça?

— Filha —replicou a minha avó—, eu só segui as instruções que me enviaras pelo telemóvel.

E mostrou-lhe o telemóvel. Ali claramente dizia: "Sugerimento presente para Carlos: compra Ferrari". A minha mãe, furiosa, atirou o seu telemóvel para a sanita enquanto explicava:

— Eu quis dizer "Ferrero", os bombons. Maldito corretor automático, maldito corretor...!

© Frantz Ferentz, 2017

sábado, dezembro 31, 2016

LARA E O CANICORNIO [+10 anos]


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Personaxes

Lara
Artus, o canicornio
Poldo
Berta
Mingo


O palco é un bosque. A parte traseira mostra unha masa impenetrábel de follas, como se fose unha cortina vexetal. Tras ela estará escondido o canicornio (en principio é un can cun chifre na testa), cuxa presenza será recoñecida porque, cada vez que a Lara fale con el, as follas serán remexidas, dando a entender que algo ou alguén está tras elas.
O resto do palco será de facto a calvela do bosque, onde a miúda vén para se encontrar co seu amigo. A cena iníciase coa Lara sentada no chan a falar aparentemente coa follaxe.

LARA: Non sabes? Hoxe na escola dixéronme outra vez que son unha soñadora, unha fantasiosa e que debo xa comezar a me comportar coma unha persoa responsábel. Iso dixo a mestra, mais o peor son os compañeiros, sonche ben ruíns comigo, rin de min todo o tempo...

A follaxe remexe. Polo lateral entra Poldo arrastrándose. Fica a uns dous metros da Lara, escondido tras unha bouzas e fica alí, á espreita.

LARA: Non entenden que eu te teña de amigo, mais como non digo quen es nin como es, todos pensan que es un amigo imaxinario. Dígoche de verdade que teño moita vontade de te presentar aos meus compañeiros, que vexan que es real, que eu non invento nada (a follaxe remexe).

O Poldo aproveita, estando no chan, para quitar o telemóbil do peto e ligar. Non se escoita o que fala.

LARA: Eu non quero ser coma toda esa xente que pasa o día a facer as mesmas cousas, a estar coas mesmas persoas, a ir aos mesmos lugares, a manter as mesmas conversas. Eu sei que hai cousas que non vemos e que están aí. É só cuestión de querer descubrilas, como me aconteceu a min contigo (novamente a follaxe remexe)

Entrementres, chegan a Berta e o Mingo. Arrástranse polo chan até chegaren á posición do Poldo. Todos tres quedan alí, á espreita.

LARA: Acredítame, non teño máis amigo ca ti. Ninguén na aldea quere estar comigo, todos din que son estraña, que son louca, que sería mellor para min mandárenme lonxe onde ninguén me coñeza. Eu só quero que entendan que te teño de amigo...

Os risos dos tres rapaces escondidos xa se escoitan. Aquela conversa élles moi divertida. Os risos son ouvidos por Lara, quen se pon en pé e vira a cabeza na dirección deles.

LARA: Quen está aí?

Os tres rapaces póñense en pé. Móvense até quedaren á altura da Lara.

POLDO: Aiou. A nosa Lara estaba a falar co seu amigo imaxinario, eh?

BERTA: Que tipo de amigo che é? Unha cascuda xigante? Unha vaca faladora? Un auto abandonado con sentimentos?

MINGO: Grazas a isto, imos ter motivos para rir de ti durante os próximos dous anos

Os tres rin ás gargalladas.

LARA: (enfurecida) Chega! Eu non invento nada. O meu amigo é real!

BERTA: E logo, como se chama ese teu amigo? (ton de chacota)

LARA: Artus!

Os tres rapaces volven a rir. O nome sóalle altisonante.

LARA: Artus, por favor, móstrate (e acena coa man para a follaxe ás súas costas).

A follaxe remexe. Ábrese un oco e por el sae unha criatura que ten toda a aparencia dun can. Mais ten unha característica especial. É un can cun chifre na testa. Ademais, trátase dun can dun tamaño considerábel.
Os rapaces fican paralizados á vista daquel animal. Até dan uns pasos para tras por medo a seren atacados.

LARA: Este é Artus.

MINGO: Mais que fera é esa? Parece un can, mais ten un corno!

LARA: Exacto. Trátase dun canicornio.

O canicornio camiña lentamente na dirección dos rapaces, mais estes parecen estar apegados ao chan, até o punto que acaban caendo de xeonllos, mortos de medo.

POLDO: Deteno!

LARA: Por que? O Artus non fai nada.

POLDO: Deteno! Vainos comer!

BERTA: Porque non creo que un can, aínda que teña un corno, sexa vexetariano.

MINGO: Mamá, ven salvarme, ven salvarme, por favor (a chorar).

LARA: Non sexades tan parviños. Como vedes, teño un bo amigo, o mellor amigo. Eu non o imaxino. E agora, Poldo, colle ese teu telemóbil e tírame unhas fotos co Artus. Quero que toda a xente se convenza que non estou louca e que non invento amigos.

POLDO: Como digas, mais bota ese bicho un pouco para tras.

A Lara fai retroceder un pouco o canicornio, para a follaxe.
O Poldo quita o seu telemóbil e tíralle varias fotos.

POLDO: Xa están feitas.

LARA: Pois agora, marchade de aquí e fai con que as fotos se vexan nas redes sociais. Ou, se non, digo ao Artus que me acompañe á aldea...

Os tres rapaces non o pensan dúas veces e saen ás carreiras polo lateral do palco. A Lara fica soa co canicornio.

LARA: Ben, por fin sós. Penso que xa non van rir de min nunca máis. Tiveches unha moi boa idea, porque ben sabías que ese parvo do Poldo me seguiría, así que pensaches todo para que el caese na armadilla, e caeu (ri). E sabías tamén que chamaría polos seus inseparábeis amigos.

O canicornio, entre tanto, fica deitado no chan, preguizoso. A miúda acaríñalle a cabeza e o lombo.

LARA: En fin, creo que fixeches ben finxindo ser un canicornio. Non existe tal animal, mais eles creron que si. Se soubesen cal é a túa verdadeira natureza, sería horríbel, porque até poderían chamar ao goberno e virían cientistas e soldados na túa busca. Mais así, cando falen do canicornio, os adultos pensarán que é cousa de nenos, aínda que haxa fotografías e ti estarás a salvo. Bo, xa son horas de recuperares a túa auténtica natureza.

A Lara retira o corno ao Artus, que está suxeito cunha goma elástica ao redor da súa cabeza.

LARA: Xa está.

O Artus ponse en pé. Queda de facto a dúas pernas e estrica os brazos. Deles xorden dúas asas, que el buliga un par de veces.

LARA: Que bo, Artus. Ninguén posúe o privilexio de ter un amigo coma ti, un auténtico candragón da Bohemia. Grazas por seres meu amigo.


Ambos danse unha forte aperta.

© Frantz Ferentz, 2016