segunda-feira, julho 06, 2015

O ATAQUE DO DONUTOSSAURO [+10 anos]


  Cada vez que o Fernão comia um dónut, tinha medo de ouvir umha gargalhada potente ao seu carom e a seguir uns berros que o fizessem sentir envergonhado de comer, precisamente, dónuts.
  A desgraça do Fernão era que adorava dónuts e precisamente nisso vários dos seus companheiros da turma atopárom um motivo para atacá-lo tudo quanto lhes petava. Tratava-se de três rapazes terríveis, o Pim, o Dam e o Gos. Com nomes tão cómicos nom era estranho que fosem conhecidos como os pindangos, unindo as sílabas dos seus nomes.
  Os pindangos nom deixavam escapar qualquer ocasiom para atacarem e envergonharem o Fernão. Durante os recreios espreitavam-no, nom importava onde se escondesse, porque o davam encontrado, e assim que travava o dónut, começavam os risos e os comentários:
  – O Fernão come dónuts, socorro, é um canibal, que come os da sua espécie!
  – Fernão, Fernão, Fernão, nom me comas, que podo ser o teu irmão...
  – Ouh, Fernão, se nom me comes, concedo-che três desejos...
  O coitado do Fernão nom podia comer um dónut em paz quando estava na escola. Tampouco tinha a coragem de contar a ninguém o que lhe faziam os pindangos, mas nem era preciso, porque toda a turma sabia o que acontecia e até lhes parecía tão divertido. 
  Na casa o Fernão tampouco nom contava nada. De facto até a mãe lhe dizia que nom comesse tanto dónut que estava gordecho a mais.
  Provavelmente as cousas teriam continuado na mesma, mas houvo um acontecimento que fezo com que mudasse tudo. Foi simplesmente que os pindangos, à vista de que o que faziam contra o Fernão quedava impune, decidírom dar um passo adiante para se divertirem ainda mais.
  Assim, durante um recreio, aproveitando que os mestres tentavam separar uns rapazes numha peleja, os pindangos rodeárom o Fernão. Em vez de rirem e arremedarem um dónut pronto a ser devorado, achegárom-se do rapaz, colhêrom-lhe os três dónuts que levava consigo e com cada um deles fizêrom umha cousa diferente.
  O primeiro esfaragulhárom-no nas mãos e obrigárom o Fernão a comê-lo; o segundo foi misturado com molho picante que levava um dos pindangos e também obrigárom o Fernão a comê-lo; e o terceiro saiu voando até o telhado da escola e iam obrigar o Fernão a ir recuperá-lo, mas por sorte soou a campaínha da fim do recreio.
  Os três pindangos ficárom bem satisfeitos, fora um sucesso total e sentiam-se orgulhosos da sua “façanha”. Com certeza queriam repeti-la o antes possível, bastava que o Fernão volvesse à escola com mais dónuts, tão simples como isso.
  Mas o Fernão nom reagiu como acostumam reagir tantos rapazes na sua situaçom. Nom foi contar nada aos professores, nom. Tampouco nom comentou nada na casa. Para que, nom o entenderiam.
  Aparentemente nom fezo nada.
  Aparentemente.
  Porém, aquela mesma noite, o Pim, o Dam e o Gos tivêrom o mesmo sonho. Tratava-se dum sonho horrível em que alguém petava na porta de cadansua casa. Os rapazes abriam e entom entrava umha criatura que assustava muito. Tratava-se dumha espécie de tiranossauro, mas o certo é que nom era um dinossauro normal, aquele... aquele... aquele estava feito de dónuts! Aquele dinodónut, ou o que for, perseguia-os por toda a casa, destruíndo os móveis ao seu passo, rugindo e abrindo umha bocoa cheia de dentes afiados, que talvez fossem também de dónut, mas nom iam parar para ficar a saber.
  Contudo, o pesadelo proseguiu na noite seguinte. Aconteceu que os três pindangos estavam no meio do campo e apareceu novamente aquele monstro de qualquer parte e correu trás eles. Os pindangos nom faziam outro que berrarem de terror, sentindo o alento de dónut do monstro na caluga. Passárom toda a noite a correrem diante do monstro, sem conseguirem perdê-lo de vista.
  E ainda umha terceira noite, volvêrom os pesadelos. Na altura tudo decorría num aviom. Os três rapazes tinham que sair da cabina e correr polas asas e polo teito do aviom, com o risco de caírem, sempre com o dinossauro de dónuts a correr trás eles.
  Claro, tanto terror já nom os deixara descansar em três noites. Tinham umhas olheiras que lhes caíam até os pés. Acabárom confessando aos pais que riram do Fernão e que aquilo tinha que ser a vingança daquele gordecho do Fernão por eles encontrarem divertido que ele comesse dónuts sem parar. Certamente nom contárom mais detalhes...
  Os pais dos pindangos, todos indignados, fôrom ver o diretor da escola. Iam pedir que aquele Fernão respondesse por fazer magia negra sobre os seus benqueridos filhos, aquelas ánimas boas que foram objeto de vingança da parte daquele rapaz insensível devorador compulsivo de dónuts.
  O diretor, um home prudente, primeiro quiso falar com o Fernão e escuitar a sua versom. Para isso, convocou-no ao seu escritório e escuitou atentamente o que o rapaz lle contava:
  – Passam todo o curso a rir de mim porque como dónuts, isso é certo –reconheceu o Fernão; depois, contou o último episódio.
  – E por que nom o contache nada a ninguém? Isso é assédio e é umha falta grave.
  Aí o Fernão baixou a cabeça, sem dizer umha palavra. O diretor entendeu que o rapaz nom queria ser assinalado como lareta.
  No dia seguinte, o diretor mandou chamar os pais dos quatro rapazes e dixo:
  – Nom há provas que o Fernão causasse esses pesadelos no Pim, no Dam e no Gos. Ademais, eles nom fôrom sinceros, nom contárom toda a verdade do que faziam ao Fernão...
  Os pais dos pindangos protestárom. Dixêrom que tudo quanto fizeram os seus filhos eram cousas de crianças, mas que o que fizera o Fernão era pura bruxaria e que isso merecia um castigo.
  Entom o diretor pediu aos pindangos:
  – Rapazes, debuxade aqui a criatura que vos perseguia.
  Os pindangos, apesar de serem maus debuxantes, conseguírom traçar umha criatura com pinta de T-Rex, mas feita à base de dónuts.
  Entretanto, noutra sala, pedira ao Fernão que debuxasse o monstro que ele cria que assustava os seus colegas da turma. E o que o Fernão debuxou era também umha espécie de T-Rex feito à base de roscas.
   Quando os pais dos pindangos comparárom os debuxos dos seus filhos com os do Fernão, estes imediatamente saltárom:
  – Vê, senhor diretor? Vê? É ele que cria esses pesadelos na cabeça dos nossos filhos! Expulse-o já!
  Só lhes faltou berrarem que queimasse o Fernão na fogueira, como se fazia séculos atrás com os bruxos ou os que pensavam que eram bruxos. Mas o diretor nom fezo nada disso. Colocou os debuxos na mesa e pediu a todos os pais que os examinassem atentamente.
  – Nom vem as diferenças? –acabou perguntando o diretor.
  Mas aqueles oito pares de olhos nom viam nada de peculiar, só quatro tiranossauros feitos à base de dónuts ou algo assim. O diretor tevo que explicar:
  – O que o Pim, o Dam e o Gos debuxárom é um roscossauro, salta à vista, porque é a criatura que os perseguiu. Porém, o que Fernão debuxou é um donutossauro. Observem que é diferente, embora sejam espécies emparentadas. O donutossauro é mais amarelo e vai coberto de mais açúcar. É que nom o vem?
  Aí os pais calárom. Que iam dizer? Nom eram expertos em criaturas dessas...
   Quando os pais de todos marchárom, o diretor ainda pediu ao Fernão para quedar uns minutos no seu escritório.
  – Fernão, nom te preocupes mais. Esses três nom te incomodarão mais.
  – Obrigado, diretor.
  O Fernão também ia sair pola porta, mas antes de marchar, ainda se virou e preguntou:
  – Por que me ajudou assim?
  O diretor, que acabava de começar um escrito no computador, detevo-se, olhou para o rapaz e dixo-lhe:
  – Porque quando rapaz, eu também fum assediado e tivem ajuda...
  – E também riam de si por comer dónuts?
  – Nom, nos meus tempos era porque eu passava o dia a debuxar elefantes e a construí-los de argila, de plastilina ou do que for.
  E justo nesse momento, o Fernão creu ouvir o grunhido dum desses paquidermos saíndo de debaixo da mesa do diretor, talvez dumha gaveta, mas já nom quiso perguntar mais. Só pensou que talvez algum día o elefante do diretor e o seu donutosauro poderiam chegar a conhecer-se e saírem juntos.

Frantz Ferentz, 2015


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