sexta-feira, outubro 08, 2010

O dia em que o grande rio não quis unir-se ao mar [+12 anos] .- XFC



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    Tudo começou numa manhã de verão, pouco depois de o ano ter começado. Nunca na história tinha acontecido uma coisa semelhante.
    Nunca.
    Nem só que os mais anciãos do país não lembrassem um evento como aquele, mas mesmo as crónicas não falavam disso. Por isso, as pessoas estavam assustadas.
    Muito assustadas.
    Terrivelmente assustadas.
    Então, o que é que acontecia? É complicado de explicar e mais ainda de acreditar, mas vou tentá-lo. Bom, o que acontecia era que o grande rio Turo tinha deixado de chegar ao mar. Eis a questão.
    Se vocês procuram na internet, nalgum motor de busca, onde é que está o rio Turo, não o vão encontrar. De facto não é conhecido com esse nome, mas com outro. Porém, os habitantes do país do rio Turo não querem que se saiba que esta história aconteceu a eles, por isso estou a vo-la contar com os nomes mudados.
    Mas voltemos para o rio Turo. Era um rio imenso que percorria o país de um extremo para o outro. E tinha-o feito assim durante miles, milhões de anos provavelmente. Então, por que de golpe tinha deixado de chegar até ao mar?
    Porém, aquilo era muito perigoso. Quinhentos metros de alcançar a costa, o rio parou. O perigo era, precisamente, que estava a criar um lago muito grande. Se continuar a crescer, chegaria a assolegar algumas cidades da costa.
    Por isso, os habitantes do país do rio Turo, que chamaremos, com licença, Turolândia, pediram a sábios de todo o mundo que viessem para averiguar qual era o problema do seu rio, por que não queria chegar até ao mar.



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    O presidente de Turolândia mandou pôr um a-núncio nos jornais de todo o mundo. Pedia sábios expertos em comportamento de rios. As pessoas que leram aquele anúncio pensaram que pedia psicólogos para rios.
    Aquele caso atraiu muitos curiosos. Não acudiram por causa do que se pagava por resolver o problema (de facto era muito pouco, apenas uma coleção de música popular do país e uma estátua muito feia dum artista local. Porém, aquela estátua, que em teoria representava uma planície de Turolândia tal qual era havia cinco séculos, parecia mais bem um bife com batatinhas recém feito. Até dava fome!
    Mas nem só os sábios foram a Turolândia para ver o que acontecia com o rio Turo. Também muitas pessoas curiosas quiseram ver de perto por que aquele grande rio, de quase mil quilómetros de percurso, não queria chegar até o mar.
    Mas era assim, ninguém se enganava. O rio não avançava. Era como se uma grande mão invisível o retivesse parado.
    O presidente do país e os ministros foram para aquele lago criado pelo rio Turo. Queriam ser vistos por todos. Sabiam que jornalistas de todo o mundo estavam por ali. Eles tinham que aparecer nas fotos, pois é.
    Entrementes, o lago continuava a crescer. Por sorte era tempo de verão e o rio trazia pouca água. Graças a isso crescia muito lentamente, mas um especialista em crescimentos de rio calculou que àquele ritmo, o lago alcançaria as primeiras casas antes duma semana. Era muito pouco tempo. Era preciso reagir logo. Mas como?
    Então, organizou-se um congresso de sábios ao pé do lago do rio Turo. Iam discutir quais as razões por que o rio não alcançava o mar.


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    Enquanto o nível das águas ascendia, os sábios reuniram-se na beira do lago. Fazia bom tempo e podia-se falar muito bem ali. Mas como todos queriam falar ao mesmo tempo, foi preciso pôr um sistema de alto-falantes que fazia muito eco.
    Os turistas gostaram daquilo. Portanto, desde o começo, já nem se sabia quem era ali sábio, turista ou político, porque estavam todos juntos e todos queriam dar a sua opinião.
    E entrementes, o nível das águas subia e subia no lago, sem pausa...
    As pessoas que estavam mais preocupadas eram os habitantes daquela zona, pois previam que ficariam sem casas dali a pouco tempo.
    Ninguém gostava de desejar bom dia ao seu casal pela manhã e apanhar uma canoa amarrada na janela do quinto andar para ir ao trabalho.
    Os únicos que estavam contentes com aquela situação eram os miúdos, porque pensavam que no próximo mês de setembro já nem teriam que ir à escola. Estaria baixo as águas. Fixe!
    Teriam que criar uma escola submarina ou bem alçar a escola de baixo as águas e levá-la para o cimo duma montanha, mas qualquer uma das duas soluções precisaria de muito tempo, portanto, as férias dos miúdos podiam chegar até fevereiro!
    Porém, os maiores estavam muito preocupados. Os sábios começaram a tomar a palavra, porque para isso eram os especialistas em resolverem questões complicadas. O presidente do país também o tentou, prometendo que aquela catástrofe traria bem ao país, mas ninguém o escutou, porque sabiam que queria ganhar votos para as próximas eleições.
    Um professor com uma barba até os joelhos tomou a palavra (mais bem apoderou-se do microfone) e disse:
    — Caros colegas, eu acho que o problema do rio é a pressão angular periférica, que exercida de maneira oblíqua pela influência da lua no quadrante...
    E largou um discurso tão chato que a metade dos sábios adormeceu e quase todos os turistas foram embora.
    Mas se o sábio das barbas até os joelhos era chato, não o foi menos uma colega dele que levava um chuvisqueiro amarelo que segundo recebesse os raios do sol mudava de cor, para vermelho ou alaranjado. Portanto, quando a senhora se movia, parecia um semáforo. O ministro do trânsito pensou que aquele sistema poderia resolver o problema do trânsito quando os semáforos deixavam de funcionar.
    Mas a sábia foi mesmo mais tediosa do que o seu colega a falar da influência da rotação dos grãos de areia no movimento pendular de Netuno sob a influência do asteróide XL-209. Aquele nome fez pensar a muitos que estava a falar de tamanhos de camisola.
    Bom, na realidade, falaram e falaram muitos sábios que expuseram as suas teorias sobre o estranho caso do rio Turo, mas nenhuma teoria convencia a ninguém.
    E assim correu um dia.
    E mesmo dois.
    E o nível continuava a ascender.
    Até que no meio daquele congresso apareceu um velho marinheiro com as botas de borracha meio desfeitas e uma barba de três dias dura como as puas dum ouriço.



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    Aquele velho marinheiro não se dedicou a cumprimentar as pessoas formalmente como faziam os sábios. Ele, no entanto, disse imediatamente o que pensava:
    — O único que acontece ao rio Turo é que tem medo.
    Os sábios e os políticos que ouviram aquelas palavras, primeiro ficaram muito sérios. Depois as gargalhadas começaram a ecoar em toda pradeira.
    Porém, aquelas gargalhadas cessaram imediatamente quando ao lado do velho marinhheiro se colocou meia dúzia dos seus colegas, tão mal vestidos como ele, mas com as mesmas barbas duras.
    O ministro da pesca quis intervir, mas não pôde, não lhe deixaram apanhar o microfone.
    — Riam quanto quiserem —disse muito sério o marinheiro—, mas o rio tem medo.
    Um dos sábios pôs-se de pé e perguntou com os óculos na mão:
    — Como pode afirmar uma coisa assim? Não tem qualquer fundamento científico.
    Os outros sábios murmuravam entre eles, apoiando a falta de critérios científicos daquela afirmação.
    Os políticos, entrementes, calavam porque não sabiam o que dizer naquela altura. Também não podiam fazer promessa nenhuma.
    Mas então uma turista do centro da Europa, toda torrada pelo sol, acostou-se aos marinheiros. Era um dos poucos visitantes que ficaram naquela assembleia de sábios porque gostava de ouvir palavras que não significavam grande coisa.
    Mas na altura, aquela mulher apareceu junto com os marinheiros com o seu garoto nos braços.
    Ela explicou:
    — Mesmo antes de começar esta história, o meu filho me disse que não queria tomar banho no mar. E sabem por quê?
    Houve um silêncio muito grande. Apenas se deixaram ouvir uns mosquitos que andavam à procura de sangue de científico, rica em carboidratos.
    — Ele, o meu filho, este que sustenho nos braços, disse-me: “Mamã, o mar dá-me medo”. Estão a perceber?
    Novamente um grande silêncio percorreu a assembleia. A uns quinhentos metros, na outra beira do rio —mais bem do lago—, um vendedor ambulante de colares, aneis e perucas vendia o seu produto aos gritos.   
    O sábio que antes tinha perguntado tomou nova-mente a palavra e quis saber:
    — E então, por que é que o seu filho não quis tomar banho no mar?
    E a turista perguntou ao filho com o microfone na mão:
    — A proč ses nechtěl vykoupat v moři
    — Protože bylo moc špinavé —respondeu sem hesitar o filho.
    Os sábios olhavam para aquela mãe a falar com o filho em qualquer idioma estranho da Europa Central. Era muito comovedor. Mas a situação era muito grave e as palavras do garoto podiam desvelar qual era a triste realidade do que acontecia com o rio.
    Portanto a mãe traduziu as palavras do filho:
    — Ele disse que não tomou banho porque o mar estava muito sujo.
    Os sábios largaram um murmúrio de surpresa.
    Os políticos também, porque imitavam os sábios.
    Os marinheiros, porém, aplaudiram, porque aquele menino acabava de explicar o que realmente acontecia.


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    E então, qual foi a solução?
    Bom, os marinheiros exigiram aos políticos que limpassem o mar.
    Os sábios não estavam convencidos de que aquela fosse a verdadeira causa daquele mistério. Não podiam aceitar que o rio Turo tivesse medo do mar porque estava sujo. Aquilo não tinha qualquer fundamento científico.
    Porém, os anciãos da zona explicaram àqueles senhores e senhoras de grandes cérebros que o mar e rio eram seres vivos. E como seres vivos, tinham sentimentos e sensações. Por isso, o rio tinha decidido que não queria chegar até ao mar porque lhe dava medo toda a porcaria que ali havia.
    O presidente do país teve que limpar o mar. Não é que o limpasse ele pessoalmente, mas teve de investir muito dinheiro para limpá-lo logo, antes de o rio alcançar já as primeiras casas da beira.
    Foi uma coisa terrível, mas afinal o filho da turista centro-europeia foi o primeiro que se meteu no mar.
    Estava limpo.
    E uns segundos depois, o rio parou de crescer naquele lago.
    Fez um estrondo muito grande, como se uma parede invisível quebrasse de repente.
    E uma cascata de água imensa recuperou o seu caminho de sempre e foi misturar-se com o mar, como tinha sido sempre.
    Os únicos que ficaram um bocadinho desiludidos foram os rapazes e raparigas, porque afinal teriam novamente aulas em setembro. Não haveria aulas submarinas, nem levariam a escola para o cimo dum monte. Porém, essa já é outra história.

© Xavier Frias Conde
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