quinta-feira, março 10, 2011

Os piolhos-dragão [+10 anos].- XFC



    — Mamã, diz a mestra que temos piolhos o Jorge e eu!
    A mãe largou um suspiro. Agora já essa!
    Com efeito, uma nota da escola dizia que os dois irmãos, o Jorge e a Valéria tinham piolhos. Portanto, ambos deles deviam ficar em casa para não contagiar os companheiros da turma e ser submetidos a tratamento.
    A mãe da Valéria e do Jorge levou naquela mesma tarde os filhos ao doutor. Tratava-se do doutor Lopes Peres da Boaventura, prestigioso pediatra que era capaz de curar um resfriado pondo medo aos micróbios que o causavam.
    Mas o doutor Lopes Peres da Boaventura encontrou que na cabeça dos dois garotos nem só havia uns piolhos pouco comuns, mas mesmo desconhecidos. Conseguiu apanhar um deles com as pinças e levou-o para o microscópio.
    Quando o teve à vista, houve de se retirar do visor porque… o piolho lançava lapas de fogo! Era uma espécie de piolho dragão. E enquanto estava a fazer as suas observações pelo telescópio, chegou-lhe um cheiro como de pele frango torrado.
    — Á, mamãe, a minha cabeça está a arder! —gritou o Jorge.
    Mal transcorreram cinco segundos quando a Valéria também gritou:
    — A minha cabeça também, mamãe!
    A mamã, que era mamã nas vinte e quatro horas do dia, pegou nos filhos e levou-os para a casa do banho. Abriu a torneira e meteu as cabeças dos filhos sob o jorro de água. Depois apenas ficou um fuminho muito ligeiro a sair das cabeças deles.
    Quando o doutor explicou que se enfrentavam a uma nova raça de piolhos, os piolhos-dragão, a mãe pensou que, se calhar, o doutor tinha chegado bêbedo à consulta.
    Porém, o doutor nem estava bêbedo, nem estava a inventar nada. Os piolhos dragão eram uma nova ameaça para a vida escolar.
    Por isso, o doutor Lopes Peres de Boaventura abriu um protocolo, que é uma coisa muito séria que se faz quando acontece algo grave. No protocolo, o doutor assinalava que era prioritário descobrir qual era a procedência dos piolhos dragão (pensava que mesmo tinha que procurar um nome científico para eles, mas isso não era tão urgente; pelo de agora, podia chamá-los peduculus flammigerus).
Graças à sua profissionalidade, o doutor Lopes Peres de Boaventura averiguou que os piolhos chegaram aos garotos numa loja chinesa do seu bairro, o Bazar «O vento cinzento do Mar Amarelo».
O doutor fez vir o proprietário da loja, o senhor Xung Qao. Parecia mesmo tirado duma dessas histórias de terror, porque não parecia um chinês normal, mas um desses antigos mandarins com trança, gorrinho redondo e bigodes finos e compridos a lhe cair pelos bordos.
    O senhor Xung Qao compreendeu de seguida o que tinha acontencido. E explicou:
    — Piolhos chineses vir por vezes em caixas de perfume. Garotos abrir tudo. Não respeitar cartazes: não tocar. Eles tocam. Portanto, abrir caixa de perfume oriental. Piolhos dragão sair e saltar cabeça garotos.
    — Estou a perceber —disse o doutor—, mas como é que fazem na China para acabar com os piolhos-dragão? Estou a ver que são muito resistentes.
    O velho mandarim tirou uma caixinha redonda da manga. No interior havia uns pontinhos pretos a saltar.
    — Na China usar pulga-cavaleiro.
    — Pulga-cavaleiro? O que é isso? —perguntaram a mãe dos garotos e o doutor ao mesmo tempo.
    O chinês mostrou a caixinha e disse:
    — Para matar dragões, é preciso usar cavaleiros. Por isso, na China, matar piolho-dragão com pulga-cavaleiro.
    E antes de ninguém poder reagir, o chinês abriu a caixinha e várias pulgas saltaram para as cabeças dos garotos. Ninguém podia saber o que estava a acontecer naquelas florestas de cabelos, mas podia imaginar-se que estava a acontecer uma batalha feroz entre as pulgas e os piolhos. E como acontece sempre na mais lendária tradição chinesa, as pulgas-cavaleiro derrotaram os piolhos-dragão. Aos poucos foram cessando as explosões nas cabeças dos garotos.
    A mamã e o doutor não podiam fechar a boca. Não podiam acreditar que tudo aquilo fosse certo, porque para os adultos é muito difícil acreditar no que não se vê. Mas depois de cinco minutos, o mandarim disse:
    — Todos os piolhos-dragão derrotados. Vitória de pulgas-cavaleiro.
    E sorriu, mostrando uns dentes muito mal conservados, o qual era uma vergonha porque com certeza ele também vendia creme e escova dos dentes. Assim não ia dar exemplo aos seus netos.
    Mas, de repente, o Jorge e a Valéria começaram a se arranhar por todo o corpo. Sentima umas coceiras terríveis.
    — Isso são as pulgas —explicou o doutor, que seguia sem saber o que fazer.
    Mas a mãe perguntou ao mandarim:
    — E como vencem as pulgas-cavaleiro no seu país?
    Lá o mandarim apenas sorriu. Com a sua expressão queria dizer que na China usam as pulgas-cavaleiro para lutarem contra os piolhos-dragão, mas ninguém ainda tinha averiguado como acabar com as pulgas-cavaleiro. 

© Xavier Frias Conde, 2011
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1 comentário:

Lagare disse...

¡¡Me encanta!!
Qué divertido, que pena que no sea capaz de comprender el texto completo en todos sus matices. Pero en esencia me parece una historia de los más entretenida. Oye, ayúdame a montar cuentos tan chulos, ¿no?
Un beso y mis felicitaciones.
Laura Frost